sábado, 16 de outubro de 2010

Cega obssessão: o preço de uma boa ação

"Toda boa ação tem seu preço", reza o sábio ditado. Ajudar os outros é uma coisa complicada e nem sempre dá certo,todo mundo sabe.Muitas vezes, é dar tiro no próprio pé. Meu pai,que foi um homem generoso e que gostava muito de ajudar todo mundo,cético que era,achava que a gratidão é gerada pela expectativa de novos favores a serem obtidos.Sem essa esperança, neca.Como se diz hoje em dia na idiotice da linguagem globalizada da internet , boa ação não dá retorno e nem tampouco agrega valores. Burrice igual, "Procure investir em si mesmo!", berram os manuais de auto-ajuda contemporâneos.Para manter as minhas considerações nesta ausência de profundidade que lá vem vindo aqui no texto, talvez haja, no final das contas, uma certa sabedoria na indiferença de todo mundo em relação aos problemas alheios. Há livros e músicas que falam sobre isto em diversos níveis, mas me parece que é nos filmes que as histórias sobre este tema ganham mesmo a sua dimensão épica; como a que meu amigo me contou de " Sublime Obssessão" eu nunca ouvi igual e é de deixar Deborah Kerr com sua paralisia disfarçada por cobertorzinho em "Tarde demais para esquecer" no chinelinho.O "enredo" é uma drama magistral ( que poderia ser um clássico de Nelson Rodrigues se o cenário fosse a classe média carioca) e foi dirigido por Douglas Sirk, o mesmo de "Imitação da vida" ( outro exemplo de malfadado altruísmo pois a mãe negra não recebe na história um tratamento políticamente correto,para dizer o mínimo). É mais ou menos assim: Rock Hudson( o eterno galã que,na verdade, era gay) faz o papel de um rapaz que, acidentalmente, atropela um casal, matando o homem e deixando sua companheira cega. Corroído pela culpa ,procura gradualmente se aproximar dela e conquistar seu afeto e a sua amizade ( e a coitada , imagino, sem enxergar, como poderia saber que ele era justamente o assassino de seu amado?). Vai bem mais além, pois começa a estudar,entra para a Faculdade de Medicina ( a estas alturas da narrativa eu já estava quase gritando) e se torna oftalmologista ( claro!) para salvar a moça-provavelmente já apaixonada por ele- e devolver-lhe a visão!!! Nunca vou saber o final da novela pois aí ,achei que a coisa toda estava demais,interrompi o narrador e, colocando-me no lugar dela ao enxergar pela primeira vez o seu salvador miraculoso,berrei: " Fui enganada esse tempo todo, você é viado!!!"
Viu?




O olhar cego,objetiva e subjetivamente falando,de nossa heroína.

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sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Seis graus de separação: como contactar Caetano Veloso

Quando Caetano estava cantando "Burn it bllue" na noite do Oscar ,ele não sabia - mas vai saber agora pois tenho a alegria de tê-lo como leitor-que havia um curioso encadeamento de fatos,circunstâncias e pessoas que contribuíram para que tudo desse certo.Por isto,naquele momento emocionante, eu não pensei em Frida Kahlo mas ,sim, em outro filme, " Seis graus de separação",um roteiro ótimo com grandes atores, que joga no meio da deliciosa história (um sofisticado casal de marchands recebe a visita, em plena madrugada, de um suposto filho de Sidney Poitier, que havia sido assaltado no Central Park) a idéia de que entre nós e qualquer outro ser vivo, por mais distante que seja, há seis pessoas intermediárias que podem levar você até esta criatura.Posto isto, é preciso que se diga, ao apresentá-lo aqui, que há uma certa redundância e um trocadilho onomatopaico em relação a Joe Melillo, diretor do BAM, e o bam,bam,bam do meio teatral de New York. Ficamos amigos em função do trabalho ( ele é o diretor da Brooklyn Academy of Arts, o mais prestigiado e poderoso teatro de NY,onde o Grupo Corpo se apresenta) mas aperfeiçoamos nosso relacionamento nas praias brasileiras onde ele veio,ano após ano,passar o verão. Ponto estratégico e quartel general destas viagens: Salvador! A empresária do Corpo nesta cidade, Marília,é filha de Gilberto Gil e sua sócia,Pitti- que tem uma função chave nesta história - é amiga de todos e de Carlinhos Brown em especial.Some a isto, nosso conhecimento com Caetano e você terá a capital baiana para novaiorquino nenhum botar defeito. E assim foi ,perfeito,durante todo este tempo.Joe se encantou com a Bahia ,tremeu nas bases emocionado quando conheceu seu ídolo - outra vez , Caetano- e disse ter visto Deus pela segunda vez na vida ( não perguntei qual foi a primeira) em um ensaio da Timbalada, nesta época ainda no quintal da casa de Carlinhos na favela do Candial. Meu amigo americano também se deu muito bem com nossa anfitriã e cicerone; por isto quando sua amiga , Julie Taymor,responsável por um dos maiores sucessos da Broadway, O Rei Leão,lhe disse que estava dirigindo um filme sobre Frida Kahlo e queria Caetano Velloso para cantar a canção do filme, não deu outra: pensou na hora em Pitti. Ligou para mim,que telefonei para Pitti, que promoveu o encontro dos dois.Paul Simon não teve a mesma sorte( deve ter ficado sabendo desta história ou, no mínimo, viu o mesmo filme): pediu ao Joe,que ligou para mim e ....Não deu certo. Caetano falou com ele e não quis interromper uma tournée já marcada para cantar em um show,juntos,em NY.Paciência.
Julie Taymor,Joe Melillo,Grupo Corpo,eu,Marília Gil,Carlinhos Brown,Pitti Canela,Caetano Velloso.
Não custa tentar,experimente: são só seis graus de separação.




-A confirmação da história por Joe,hoje, via email.

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terça-feira, 12 de outubro de 2010

A gripe de Abgard Renault ( ou como se livrar de seu soutien)

Afonso me contava rindo que toda a vez que seu tio, Abgard Renault, tinha um compromisso indesejável ,usava um ótimo recurso: " Que dia é mesmo?
Terça- feira? Não, terça-feira não posso, vou estar gripado."
A idéia é tão boa que me faz pensar até mesmo em um cardápio onde se poderia escolher,por antecipação, a doença amena de que seríamos acometidos, de acordo com a exigência da ocasião: alergia para vernissages me parece correto, intoxicação alimentar diante da ameaça de qualquer cerimônia de posse - cargo político,ou não- torcicolo para batizados,dores lombares para casamentos e, mais grave,hérnia de disco para aqueles com recepção após( em caso de festas com decoração tipo "estive-em-Bali-e-amei" seria admissível acrescentar a fratura de uma ou duas vértebras).
Para palestras sobre ecologia e sustentabilidade, gastrite nervosa seria uma boa opção, enquanto sinusite aguda serviria para apresentações em colégios ( para reuniões de pais de alunos, pelo seu caráter periculoso, seria sugerida internação com - falsa- crise de apendicite).
Tal misantropia tem justa causa: comecei cedo e ,por conta própria ou por exigência profissional,não parei mais.Quer dizer,até há bem pouco tempo atrás quando- para usar uma expressão que meu pai adorava ( mas não praticava)- eu não havia ainda " tirado o soutien da alma". Livrei meus ombros daquela martirizante alça torcida da obrigatoriedade, aliviei as costas do fecho apertado da gentileza de dizer sempre "sim". Como as primeiras feministas, lancei ao fogo este bárbaro instrumento de auto-flagelação: chega! Hoje, na minha praia, exibo meus peitos nús, para deleite de alguns e desgosto de outros ; a pele clara , assim exposta,protejo com filtro contra inveja.
Tal solidão, é amenizada entretanto pela visita de amigos que, na pior das hipóteses, vêm, curiosos, ver de perto o que a lei da gravidade fez comigo.




Lúcia Nemer- " À beira do frontispício": O importante é tirar o soutien da alma.

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Aimez-vous Schumann?

Se eu fosse dar uma de Tarantino em " Pulp Fiction" , eu começaria esta história na loja da Virgin , na Avenue Champs Elysées em Paris, onde nosso personagem principal acaba de comprar um disco que tem ,entre as suas composições, um poema de Heinrich Heine musicado por Schumann .Não foi fácil. Para convencer um jovem vendedor francês a desembalar vários CDs até que, a nossa arca das ilusões perdidas , o nosso Santo Graal das histórias de amor,ou seja, o disco tão desejado,fosse encontrado, Lúcia, a emissária que o acompanhava, teve de contar tudo. E foi mais ou menos assim.
Estávamos dentro de uma van,noite chuvosa ,trajeto longo,sómente um casal e eu, sem ter muito o que conversar - já que não havia muita ,ou melhor, nenhuma intimidade entre nós- até que saquei da algibeira uma de minhas perguntas favoritas, nesta e em vários outros tipos de situação: "Como vocês dois se conheceram?" Diante desta invasiva mas romântica questão,nem ele, pessoa um pouco tímida e introvertida, resistiu : "Houve um período,disse-me ele, em que, durante várias noites seguidas, eu acordava com a visão de uma pequena árvore ao lado de minha cama, como se tivesse sido plantada ali. Conversei sobre este fato com uma amiga, que me disse conhecer um poema de Heine ,do século XIX, com uma história semelhante à minha" ( o desenrolar é um pouquinho complicado mas vale a pena acompanhar). Sua amiga, cujo nome não sei, vai para o interior de Minas- Poços de Caldas ,se não me engano- passar o final de ano com a família ,onde se encontra com sua sobrinha (que também morava fora e estava ali pelo mesmo motivo) e lhe conta a coisa toda. Ela, a sobrinha,por sua vez, o conhece de nome mas não o identificou como o cliente a quem ela atendia regularmente na livraria em que trabalhava,até que viu,ocasionalmente, sua foto em um jornal.Juntou uma coisa com a outra, e descobriu ser ele, o homem da visão ,o seu "freguês".Muito bem. "Quando nos vimos novamente no local de trabalho dela, continua ele, ela recitou para mim os versos que havia lido sobre meu "sonho".
Casaram-se algum tempo depois e este pequeno roteiro poderia terminar aqui se eu não tivesse almoçado,anos depois, com uma


Heinrich Heine

cantora lírica, à qual contei ,empolgado, tudo que acabo de escrever acima. Ela, Jeniffer , disse-me que não só conhecia o poema de Heine, como sabia também que ele havia sido musicado por Schumann e ,ali mesmo, no meio do restaurante Bernachon,em Lyon, cantarolou um pequeno trecho da canção ( "lieder"). Mais
tempo se passa e estamos em Paris; ele ( agora já um amigo), eu, e a razão de todos nós juntos ali: a Companhia do Grupo Corpo que se apresentava em temporada nesta cidade. E o caso da poesia agora transformada em música, volta à tona em nossas conversas (ele presente), ainda por terminar. Cinco,seis horas da tarde-pouco tempo portanto antes do nosso espetáculo começar- a Lúcia,ansiosa, não resiste: decide ir com ele à loja de discos mais próxima ao teatro e esclarecer a questão.Este é o momento em que retornamos ao início do texto e ao já sabido final da fita.Entretanto,é preciso que se diga, ainda não acabou : meu amigo e personagem comprou um só exemplar do disco, não me disse qual era e sequer me mostrou sua capa.Eu nunca soube portanto , qual foi o resultado desta fusão poético- musical que coroou a busca de uma resposta a uma curiosidade de tantos anos atrás.
Talvez haja histórias que, ao contrário da ficção, devam permanecer ocultas, como músicas e poemas que foram vividos, sentidos e pensados mas jamais foram escritos.



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sábado, 9 de outubro de 2010

The man I love: a boutique dos clichês

Assim como na canção,ele veio. Não, nada disto,corta,corta!!!Pra começar eu é que fui atrás dele e ,depois, o fato dele ser grande e forte como diz a letra,no caso,não interessa. Com ele são outros quinhentos: humor,inteligência ,cultura e ,como resultado desta soma ,o uso cuidadoso da palavra ( e quando digo isto, quero dizer elegante,sem ser chato e pedante). Há uma hierarquia que,mesmo nos momentos mais graves, deve ser respeitada( também - e sobretudo- pelo interlocutor), palavras cuja repercussão têm para ele os níveis de gravidade grande, média e pequena.Assim como se você entrasse em uma boutique e escolhesse nas prateleiras e "araras", um vocábulo ,frase ou expressão ,em um dos tamanhos mencionados acima. "Patamar" por exemplo é médio,já "mineiridade" é G. "Qualidade de vida" (jaqueta jeans bordada com tachas ,36 a 42) )para ele é jamais ter de se expressar desta maneira e pode ocasionar um afastamento , com uma desculpa polida, de até duas semanas. Há casos em que ,mesmo contra sua convicção mais profunda ( êpa! GG!),acontece um rompimento definitivo; as consequências desta súbita mudança em uma relação( XXL ) entretanto não são fatais por serem exatamente pessoas que se encontraram ( fora do mostruário ).Jamais agregou valores ( blusa com 3 peças em sobreposição, lycra).
Pois num surto ,eu me abri ( malha decote em V,tamanho único)com ele , me assumi ( calça justa de couro, unissex) e lhe disse toda minha verdade mais profunda ( conjunto em helanca, de 46 a 52) : "Estou em paz comigo mesmo ( pantalona estampada com blusa frente única),encontrei um equilíbrio interior(shortinho com mini blusa,P,M ,G) Eu me gosto.( modelo para noite em lurex, todos os tamanhos , 50% de desconto).
Mas nem sempre foi assim. Antes desta bem aventurança toda ,no meu estado predileto de deprimido neurótico,eu era chic ,sabia me expressar bem. Cheguei ao seu consultório e, respondendo à sua pergunta sobre a razão de estar ali, eu disse: " Sofro da síndrome de Blanche Dubois", ao que ele prontamente acrescentou: "Depende da generosidade de estranhos?". E eu tive a certeza ,naquele momento,ao me deparar com alguém capaz de citar prontamente Tenessee Williams,que eu tinha encontrado o meu homem. E dele nunca mais me desgarrei.
Para Guilherme,com amor.







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sexta-feira, 8 de outubro de 2010

O primeiro a gente nunca esquece: a última vez que vi Paris

Ninguém queria fazer, tinham receio de que não desse certo mas eu acabei convencendo meu compadre Paulo,o diretor: 30 anos do Grupo Corpo, trilha do Zé Miguel e Caetano para o novo espetáculo, Onqotô... Tinha tudo a ver. Dito isto,assumo a responsabilidade, publicamente, pois o projeto,realmente não foi, como previsto ,o que se esperava.Em duas palavras: não funcionou. Estou falando do longa " Grupo Corpo,uma família brasileira" ,produção e direção da família Barreto .A idéia , era se fazer uma ampla e detalhada documentação de tournées da Companhia no Brasil e no mundo ( a meu ver, uma espécie de " Na cama com Madona",trocando-se ,evidentemente, a diva pop pelos Pederneiras e portanto,por incrível que pareça, mais divertido e movimentado que o original) mesclada à história da família e trechos de espetáculos ao longo destes anos todos. Muito bem,lá fomos nós, Rio,São Paulo, New York,Londres, Paris... E foi aí,nesta última cidade que tudo aconteceu. Quem resiste sair andando no Marais,capote de inverno, Fábio,um diretor com filme (que eu não conhecia) indicado ao Oscar , sua equipe, câmera e aquela coisa peluda que grava o som, diretamente sobre você? Eu,lamento desapontá-los, não resisti: achei que eu era o tal, "o cara" ,aquele no qual,o Barak se já fosse Obama, daria com intimidade e admiração,um tapinha amigo nas costas. Superando o limite estipulado por Andy Warhol, meu flerte com a fama durou mais ou menos 12 horas.Quando cheguei ao hotel, de volta da filmagem, meu dedão do pé estava vermelho,um pouco inchado e,coçando! Será? Em Paris? Mas nunca me aconteceu antes... Não deu outra: esquenta a agulha, cavuca daqui ,cutuca dali e ele apareceu: o meu primeiro,aquele que resolveu ,assim do nada,surgir logo lá, na cidade mais chic do mundo. Sua cabecinha surgiu envolta em uma aura de punição e ,num momento de delírio, cheguei a achá-lo meio parecidinho com o Torquemada, o chefe da Inquisição Espanhola, careca e branquelo,pronto para exorcizar os males demoníacos que haviam se apossado de meu corpo. Em segundos , a espada divina, a queda do arcanjo,o fim da glória prometida, a volta à monótona, desprezível e corriqueira condição humana: eu tinha bicho-de pé. A consciência deste estado redutor,no entanto,persistiu sómente até depois do café da manhã do dia seguinte; desculpem-me ,eu sou fraco,apaixonado por cinema e bastou uma nova tomada de cena em outro canto parisiense para que eu me esquecesse da esclarecedora experiência religiosa da noite anterior.Foi só a claquete bater e gritarem," Câmera, ação! " e eu me entreguei novamente, de corpo e - principalmente- de alma também. De repente,parado bem ali,na escada rolante do Pompidou,estava ele, o outro, o "tinhoso" , perigosamente sem chifre nem rabo pontudo , muito antes pelo contrário: já que era cinema - sempre é - tinha a forma sedutora de Al Pacino,misterioso,malévolo e sorrateiro . Falando mais pelo branco de seus olhos do que por sua boca maldita disse: " A vaidade é meu pecado favorito". Desta vez , o bicho realmente me pegou.




"Ele" , olhando para mim em Paris...

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quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Fale tudo sobre ela

Ezra Pound disse, referindo-se ao escritor Henry James, que havia previsto e antecipado o Armagedon, trinta anos antes da Grande Guerra: "Os artistas são a antena da raça."
Além de ser pintor, e conviver através do exercício da profissão com certas percepções, talvez mais aguçadas das que habitualmente se tem, pude comprovar a eficácia e veracidade deste conceito quando, em 2002, fui assistir "Fale com ela" de Pedro Almodovar. Há muitos anos antes eu tinha vivido uma história muito semelhante àquela do filme e tive a sensação de que o diretor , não sei como, recebeu as minhas ondas, ( vibrações , ou seja lá o que for que a gente manda para este tipo de antena) na hora de escrever o roteiro deste filme . No meu caso, não tinha toureira mortalmente ferida no leito ao lado e, infelizmente, Caetano não cantou.
Fiquei vinte e um dias entrando e saindo do CTI de certo hospital com uma falsa identidade ,cuidando de uma paciente e ,como o rapaz do filme, passei-lhe cremes, loções para limpeza da pele ( calêndula, lembro-me bem) , conversei sem ter certeza de ser ouvido e, como o roteiro neste caso exigia do personagem, passei ,no papel de Doutor, muito aperto para dar parecer sobre exames dos quais eu não entendia patavina. Demonstrando uma certa aptidão para as câmeras, fazia cara de inteligente , meditabundo, franzia o senho , punha a mão no queixo e, canastrice ímpar,mostrava , uma determinação ferrenha de herói salvador de pessoas indefesas pela doença: durante uma crise ,proibi que lhe aplicassem dolantina ( um analgésico derivado da morfina muito usado após cirurgias) por não saber do que se tratava ,sendo levado em seguida, num momento de grande suspense, a uma reunião com o chefe do plantão noturno que ,estupefato diante de minha ignorância, explicou-me a fórmula e o uso do medicamento. Para completar a tensão reinante ,o médico cuja identidade eu havia assumido, me fazia ameaças mortais ao telefone :" Você vai jogar meu nome na lama!" deixando implícitas possíveis atitudes de revanche e de vingança.Convicto de meu papel na perigosíssima farsa,entrava e saía do prédio pelo elevador de serviço, juntamente com a roupa de cama do hospital, receoso de que me tomassem de volta o mágico crachá que me permitia entrar ali e interrompessem uma promissora carreira de ator de seriado de TV que se iniciava. Agia como se fosse uma mistura de Dr Kildare ( hoje seria House) com um esteticista shamânico capaz de aplicar cosméticos de efeitos milagrosos e rejuvenecedores .Sejamos justos: não propriamente devido à minha atuação, já que eu era ainda um mero figurante nesta história, o negócio deu certo e o final foi feliz. A mulher, tida como morta ao dar entrada no hospital,ficou boa, como acontece também na versão espanhola Contudo, não transamos, não tivemos filho e não fui para a cadeia por isto. Pudera, tratava-se de minha mãe, e eu , ao contrário do título do filme anterior de Almodovar,não falei aqui ,nada sobre ela.



Pedro Almodovar o "antenado" diretor de "Tudo sobre minha mãe"
e " Fale com ela"

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