quarta-feira, 6 de outubro de 2010

O exílio de Maria Teresa

O " Manual de instruções para a vida",um pequeno livrinho que eu adorava e comprava sempre na banca de revistas do aeroporto, tinha conselhos ótimos ; o problema era que, mesmo concordando com eles, eu jamais os segui. Um então, me lembro bem, que ficava lá no meio da página em letras grandes em negrito, dizia: " Jamais dê palpite no cabelo de alguém".
Tenho a sensação - e quem me conhece sabe disto- que não fiz outra coisa na vida a não ser transgredir esta regra de conduta e, mais ainda, não me limitei sómente à área capilar especificada : tentei derrubar penteados, violentar sobrancelhas, revolucionar bocas, clareei e escureci ,verbal e mentalmente, o rosto de centenas de mulheres , através de conselhos gratuitos ,dados às vezes a estranhas, vítimas preferidas de uma espécie de um assalto estético-visual. A última vez, alguns dias atrás, na feirinha de flores,lá fui eu ,incorrigível e voraz,sem quê nem pra quê ,abordar a proprietária de um dos barracas na qual compro com frequência ; com um tanto de flores na mão,eu lhe disse, assim "na lata": "você clareou muito seu cabelo,puxou a cor para um tom avermelhado- mertiolate e está parecendo dez anos mais velha!" Coitada, ficou tão atônita que se esqueceu de me cobrar e eu saí sem pagar. Mas,por bem ou por mal, um semana depois ,na sexta feira seguinte, lá estava ela de volta à cor normal, dez anos mais jovem e a minha conta,desta vez,paga.
Este tipo de gente intrusa ,como eu,que vive do próprio olho e acha que por isto e para a felicidade geral da nação, pode sair por aí " melhorando" o mundo, tem um precedente mais famoso, numa situação mais grave e bem pior,envolvendo "gente da pesada" . O fato,segundo consta, é que Denner, o grande estilista brasileiro - com o intuito de transformá-la em uma Jackie Kennedy brasileira-


se tornou o que hoje chamamos hoje de "personal stylist" da primeira dama do Brasil na década de sessenta, a linda Maria Teresa Goulart. Linda e jeca. Por causa deste segundo atributo, nos primeiros dias da revolução de 64, queda do governo de seu marido e poder assumido pelos militares, Denner,consciente do gosto duvidoso de sua cliente, ficou preocupadíssimo com a roupa com a qual Maria Teresa partiria para o, já mais que certo, exílio; imaginou para a cena da partida,que exigia discreção e dignidade, um tailleur cinza grafite ou, no máximo, um xadrez " Príncipe de Gales"...
O mundo desabando e ele desesperado, tentando falar com o Palácio do Planalto para dar-lhe orientação sobre o figurino adequado para tão trágica situação; claro, debalde , não conseguiu. Já pensou, um general do exército, de extrema direita, escutando do outro lado da linha, o pobre coitado ponderando sobre a gravidade deste específico tipo de assunto?
Não teve jeito; Maria Teresa foi exilada de turquesa mesmo.


- Posted using BlogPress from my iPad

Location:Vila del Rey

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Calatrava generico

Não houve como evitar: o trailer do filme baseado em Chico Xavier, " Nosso Lar " ( nosso, cara-pálida?) passou em tudo quanto é lugar .E aí , entre outras considerações, fiquei pensando: por que será que todo filme espiritualizado, passado no Além, tem arquitetuta de um Calatrava genérico? Sim, ele mesmo,o arquiteto espanhol ( do qual tem se falado muito por aqui nos trópicos pelo museu mar adentro que projetou para o Rio de Janeiro) que acabou se tornando causa e consequência de um estilo : tornou realidade aquelas construções que víamos há muitos anos atrás nos filmes sobre a vida no ano 2000 e ao mesmo tempo gerou um modelo para outro tipo de ficção: a vida após a morte. O que vi no curto trecho da história , mostra edifícios com estruturas leves, aerodinâmicas, pressupondo , da mesma forma que os pseudo- projetos exibidos,que faremos uma passagem para algo mais leve, mais claro, com uma uma luz difusa e , quem sabe? até mesmo flutuantes,caminharemos sobre as águas, como o faz o autor com suas verdadeiras obras. Tal sensação tem no figurino um forte colaborador; todo mundo de branco ,o que não é bom ,já que, pelo visto,revivemos com o corpo que morremos - a maior parte em idade avançada e, em geral , com barriga e pneuzinhos - e cor clara, como sabemos, neste caso não ajuda em nada ( mais um equívoco da direção- de arte- horizonte- perdido) . Deveríamos renascer, jovens, bonitos e, sobretudo, magros. Paraíso deveria ser a promessa cumprida, feita em campanha aqui na Terra pela religião, de que seremos eternamente felizes : poderemos comer e beber tudo sem engordar , usaremos aquelas roupas pretas, justas e na moda e, com o corpo em forma e chics , seduziremos todos que desejarmos. Quem ,depois de ralar a vida toda, trabalhar pra burro para ganhar o pão-nosso-de-cada-dia, fazer dieta e o diabo a quatro,quer ir para o Paraíso vestindo um camisolão tipo hospitalar? Nem pensar. Já que foi impossível em nossa rápida trajetória terrena, a gente quer usar Prada na eternidade.
Nossa plataforma,prezado mortal , é outra , e é aqui e agora: nada de falsas propostas , construções com jeito de estádio de Olimpíada , roupas desestruturadas feitas com aquele pano ralinho. Nós descrentes, queremos um verdadeiro criador para a coordenação geral do caos do dia-a-dia ; um idealizador capaz de uma postura contemporânea, simples,absolutamente despojada e, melhor, sem aqueles artifícios que nos insuflam o mal que, por ser o mais perigoso de todos, foi o último a ser tirado da caixa de Pandora: a Esperança.






Um Calatrava não falsificado





Pandora e sua caixa

Location:Vila del Rey

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Com Picasso na cozinha ( quem dá mais?)


Scliar me contou certa vez ,que foi visitar Pancetti em seu atelier e quando chegou lá , debaixo de chuva ,o mestre havia colocado três de seus auto-retratos à entrada da porta para que se limpasse neles a lama dos pés . Ele ,como um admirador que era , claro, as recolheu e ganhou-as de presente do seu amigo,provavelmente tocado por seu gesto de respeito em relaçāo ao seu trabalho. Uma destas telas está em sua casa,atual sede da Fundação Carlos Scliar,em Cabo Frio; as duas restantes ,ele as presenteou:uma a Gilberto Chateaubriand ( um dos destaques em sua vasta coleção) e a terceira foi dada a uma outra pessoa de seu relacionamento , cujo nome nāo me recordo. Sabedores da importância que têm hoje estas peças e de como foram salvas do lixo,ficamos conversando ,naquela ocasião, sobre quanto vale uma obra de arte em termos de mercado e como é, às vezes , relativo e circunstancial o fator que determina o seu preço.A intenção não era chegar a uma alguma conclusão sobre o assunto pois ,neste caso, teríamos ficado anos ali, filosofando e patinando no mesmo lugar.Ao invés de Arte, estávamos jogando conversa fora.
Este caso,vagamente análogo, me remete a uma outra história curiosa,onde as obras , de maneira bem diferente, estavam também longe dos sacrários dos museus ou dos pedestais das galerias comerciais ,um lugar onde havia ,despretensiosamente, espalhados por todas as salas e até mesmo na cozinha,diversos trabalhos de Picasso , presenteados pelo próprio artista ao dono da casa ,de quem era amigo e grande admirador: estávamos nos arredores de Madri, na casa de Luis Miguel Dominguín ,talvez o mais famoso toureiro de todos os tempos- falecido nos anos sessenta- e a atriz italiana Lucia Bosé (com quem se casou , logo após um caso tumultuado com Ava Gardner : o homem era mulherengo,todo mundo sabia disto),na qual havíamos sido convidados para almoçar. Comemos todos ali, no meio de pinturas, desenhos,cerâmicas ,todos com dedicatórias referentes às diversas ocasiões especiais da vida do casal : as duas filhas,o genro - responsável por uma apresentação especial do Grupo Corpo na Espanha-e o filho que é o ator e músico muito conhecido,Miguel Bosé. Eu,um pouco intimidado com toda aquela fama à mesa e nas paredes ,nem pude aproveitar direito esta rara oportunidade de conviver, assim, sem alarde nem efeito especiais, com obras que poderíamos estar admirando no Louvre, no Moma ou em reportagens sobre os apartamentos fartamente decorados dos milionários mais votados da revista Forbes.
Foi um ótimo almoço ( uma variação espanhola do nosso conhecido cozido português, com vários legumes e carnes misturados) com uma gente simples e simpática.Depois disto,até hoje,quando vejo um Picasso em uma exposiçāo com aqueles cordões vermelhos de proteção - absolutamente necessária,concordo- digo pra mim mesmo,zombeteiro: " Já almocei na cozinha com um destes ao lado e,por pouco, não deixei cair nele um pedaço de grão de bico ".





Retrato de Luis Miguel Dominguin
por Pablo Picasso

Location:Vila del Rey

domingo, 3 de outubro de 2010

Como se tornar imortal

Não,felizmente, não é nada sobre a Academia Brasileira de Letras. Para falar a verdade, acho que aqueles respeitáveis senhores nem devem gostar ,em sua maioria,deste tipo de literatura ,que tem, entretanto,um bando de seguidores ilustres : o romance policial. P. D. James, Lawrence Block,Dennis Lehane,Michael Connelly, John Dunning para citar apenas alguns de meus autores contemporâneos favoritos. E então, Patricia Cornwell criou uma patologista forense enfiada em investigaçoēs sobre a morte de suas " testemunhas silenciosas", que mudou o cenário destas novelas e que , a meu ver, gerou todos estas series tipo C.S.I. que passam atualmente na TV. Seu nome : Key Scarpetta. Tínhamos ate algum tempo atrás, um grupo de fans de carteirinha de seus livros e comentávamos as aventuras,sucessos e infortúnios de nossa heroína . Maria Cândida - estilista e uma das proprietárias da Maria Bonita- famosa grife de roupas femininas de requintadíssimo design- com quem tive o prazer de conviver,alguns poucos anos antes de sua morte prematura, era uma destas leitoras entusiasmadas da detetive amadora. Loura mas imagino que não muito, sutilmente bonita e bem vestida, Mrs. Scarpetta tinha tudo o que a gente gostava e ,eu pelo menos, queria ser : uma pessoa perspicaz,decidida a levar seus casos até as últimas consequēncias sem pensar muito em si mesma,independente , capaz de enfrentar todos os problemas com uma fibra inquebrantável,sempre dizendo a coisa certa no momento exato. Dois problemas no entanto atrapalhavam sua vida e aborreciam seus leitores: sua chatíssima sobrinha Lucy,técnica avançada em informática, que na vida fora da internet ,entretanto, só arrumava namoradas psicopatas assassinas , para desespero da tia que tinha uma trabalheira danada para consertar as situações em que ela se metia; o segundo era seu interessante namorado Benton Wesley,membro da inteligência do FBI, homem maduro,sofisticado como ela, capaz de conversar sobre serial killers e literatura com a mesma fluência e tranquilhidade, fosse na cena do crime( com chuva, faróis acesos, lama e membros decepados de uma anônima vítima espalhados por toda a área) fosse à beira da lareira,tomando um tinto italiano. Mas nao assumia o romance e sofríamos com os desencontros do casal que se amava loucamente mas não dava certo. Tudo ia muito bem no nosso mórbido intercâmbio literário, até que um dia Cândida comprou o novo livro de Patricia nos Estados Unidos - um por ano em geral- e me telefonou para contar que Benton havia morrido na nova história e , ainda por cima, de uma maneira horrível. Fiquei duplamente chocado com o acontecido ,pois além de ter sabido desta novidade desagradável ,assim, de repente, sem ter acesso aos detalhes que pudessem me consolar no livro que ainda não tinha ,achei que a minha companheira de leitura não tinha nada que me contar, antecipadamente- e ainda por cima por telefone - um fato que alteraria minha diversificada vida literária , criando um enorme buraco negro com a morte de um conhecido meu, cortado na última edição sem que eu tivesse sido ,sequer, consultado. Mas nada se deu como esperávamos: minha amiga se foi, vítima de um câncer e jamais soube que Benton ,pasmem!,ressurgiu alguns anos depois , vivinho, de cabeça raspada ,disfarçado e morando em um cidadezinha pequena do interior dos Estados Unidos. Lucy ficou milionária através de suas aptidões com computadores , comprou Ferraris,helicópteros e mansões que de nada adiantaram ; continuou insuportável e infeliz no amor. A patologista , quem sabe coerentemente com sua profissão,ficou visceralmente abalada pela perda de seu amado (que ela custou a descobrir que era uma mentira necessária à política de Segurança Nacional ) e passou a se comportar como uma nova rica, descrevendo a marca do que comia e bebia ( como vários restaurantes supostamente " finos" que especificam em seus cardápios, entre parenteses, que tal e tal produto sāo "importados" como atestado de sua qualidade e justificativa para seus preços),preocupada com a sua Mercedes especial de estofamento de couro preto, imersa em tapetes macios e cortinas de tafetá, uma vulgaridade até então insupeitada.A narrativa perdeu o rumo e os crimes de suas histórias adquiriram uma crueldade impossível de se ler, um sadismo lastimável e gratuito, descrito nos mínimos detalhes.
Talvez ,como se exigia nos filmes e peças de teatro nos anos sessenta e setenta ,eu não tenha "captado a mensagem" de suas histórias atuais: o mundo caiu em uma vala comum de indelicadezas,grosserias,descaso, violência exibicionista e a ignorância foi elevada à uma condição exótica interessante.
Dizem que Benton Wesley veio para o Brasil, e tem um restaurante a quilo em Guarapari; outros falam que é vigia noturno de uma delegacia na baixada fluminense. Pelo que nos fez sofrer e nos enganou, eu queria que estivesse mesmo é trabalhando de contínuo no gabinete da Casa Civil da Presidencia onde, quem sabe , poderá exercer, nas circunstâncias atuais , o que lhe resta de seus dons investigativos.
Maria Cândida, por sua vez, ficou livre desta bandalheira que assola o planeta e está viva por aí afora: toda vez que aparece uma mulher elegante, no sentido melhor e mais amplo da palavra, a gente se lembra dela.




- Posted using BlogPress from my iPad

Location:Vila del Rey

sábado, 2 de outubro de 2010

Me and Mr.Walker

Toda vez que perguntavam ao Fantasma se ele era imortal, ele respondia daquela maneira insuportável- como o fazem Pelé e outros tantos ilustres idiotas- referindo-se a si próprio ,esquizóide, na terceira pessoa do singular: " O Fantasma é." Na verdade, nós leitores,bem como seu fiel cachorro Capeto ( que se expressava através de arfs,arfs... e que eram traduzidos em palavras em um balāozinho desenhado acima de sua cabeça) sabíamos que não era bem assim: a tradição do Fantasma era,sim, mantida de pai para filho há mais de quatrocentos anos , sem nenhuma interferência do Além no assunto. Meio esquisitão ele,pensando bem agora com um certo distanciamento crítico: à noite , se transformava em Mr. Walker e caminhava a esmo pelo cais do porto, a bordo de uma gabardine fechada por um cinto amarrado com um nó ( tinha cintura fina) ;se havia aí qualquer coincidência com a marca de whisky, é um assunto que nunca foi esclarecido pela revista pois,pelo menos teoricamente,ele não bebia.E não se casava tampouco.Tinha uma pobre coitada de uma moça, Diana, que esperou,literalmente,séculos por ele e,nada! Talvez por ser esta tão instigante criatura que não bebia,nāo transava e,aparentemente, nāo morria também , foi morar no meio da floresta, dentro de uma caverna em forma de caveira , que ele dividia,se nāo me engano, com um pigmeu gordinho (que usava um chapéu de palha tipo chinês-em-plantação-de-arroz , que lhe conferia um charme todo especial pois combinava com a sainha,também de palha) lider de uma comunidade alternativa de afro-descendentes não longelíneos, para colocar a coisa toda corretamente.Aparentemente ,são felizes, se não para sempre,pelo menos até agora, quatro século depois , o que , convenhamos ,é uma façanha e tanto , digna do Uganda Book of Records ( na floresta não é permitida a publicação de impressos de países com mentalidade colonialista).Uma dupla desigual, porém muito simpática.
Minha história se cruza com do Fantasma em vários aspectos: além de fan , de morar dentro de uma pequena matinha, de me considerar atualmente meio recluso e esquisito, tenho na familia uma profissão que passa de pai para filho já há bastante tempo: psiquiatra. Nossas semelhanças,no entanto, terminam aí : ao contrário dele, não dei continuidade a esta bela missão de ajudar cabeças alheias; provavelmente, vítima de uma praga , rogada por algum cliente enraivecido tipo " Um dia vocês vão ter um na família",eu sou, ou melhor, " Fernando é ", meu herói que me perdoe, o que se pode chamar de- sem precisar de nenhuma legenda explicativa nem companheiro de caverna - a vingança da clientela.





O Fantasma, Capeto e o cavalo Herói

Location:Vila del Rey

Minha avo, Cleopatra Selene

Tinha um rapaz no nosso grupo que flutuou no Mar Morto, tal qual haviam dito que aconteceria, por causa da alta densidade do sal na agua. Esqueceu-se porem de seu grave problema com hemorroidas e , de repente, estava ele la sentado na agua, como um milagre biblico, mas com as lagrimas correndo bochechas abaixo de tanta dor que sentia. Isto aconteceu em seguida a uma visita a Massada, a famosa cidade sitiada pelos romanos ,no alto de uma montanha no meio de um deserto em Israel, onde se chega atraves de um bondinho teleferico que faz voce rezar por todos os que morreram tragicamente neste lugar , e chegar la em cima vivo.Foi ai que, anda pra la,anda pra ca ,uma temperatura de mais de 50 graus, eu descobri,exatamente nas ruinas do ,assim chamado ,Palacio de Verao de Herodes, o quanto eu havia sido enganado todos estes anos.Por Hollywood. Queiram ou nao,estamos acostumados com aquelas proporcoes cenograficas espetaculares de residencias reais que vimos a vida inteira no cinema.Pois nao e que o tal spa de Herodes era pouco coisa maior que um 3 quartos, destes bem pequenininhos,onde mal cabe a cama, como se faz hoje em dia? Claro que poderia ter lido,visto fotos a respeito destas construcoes ou ate mesmo ter descoberto esta farsa em Roma, que e bem mais perto e bem mais fresco, mas la, ter percebido isto em pleno territorio onde se deram cenas do Velho e Novo Testamento, e diferente e, nao e nada,nao e nada ,percepcao ampliada tambem pelo delirante efeito do calor. Pra pior dos pecados ,eu vi o filme, "Massada" com Peter O'Toole fazendo o general romano que provoca, em um gesto de resistencia heroica, o suicidio de todos os moradores locais. Sabe que ainda tem umas duas ou tres catapultas ( adoro esta palavra!) la em baixo do morro? Nao sei se sao as originais ou,se numa pechincha,pediram ao pessoal da filmagem para fazer um precinho bom e, ja que nao iam precisar mais delas ( o que fazer com uma catapulta fora do contexto historico? Onde guarda-la?"Menino,venha logo pegar esta catapulta que voce deixou espalhada aqui na sala!"), que as deixassem por la. Desci no bondinho e ,apesar do pavor naquela altura toda,fiquei revendo as ideias que tinha sobre os personagens historicos que eu aprendi a cultuar, principalmente nos filmes B , de baixo orcamento. E Cleopatra entao? A super producao com Elizabeth Taylor e tudo? Sabia que na verdade ela, a grande Cleopatra VII, setima rainha com este nome , tinha uma avo com o expressivo nome de Cleopatra Selene ? E que, mais grave ainda, que talvez a bunda que aparece no filme quando a rainha esta recebendo uma massagem de barriga para baixo -e que fez a censura mudar de catorze para dezoito anos! - nao era de Mrs Taylor mas de uma double? Mas isto ja e outra Historia.

Massada, o spa de Herodes e a enganacao cinematografica
















- Posted using BlogPress from my iPad

Location:Vila del Rey

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Maciste: nos poroes da Gloria

A formula era simples mas ,para mim, infalivel: pegava-se o Mister America da epoca ,com uns nomes assim significativos como Rex Reed , bezuntado devidamente em todas as partes do corpo a fim de ter seus musculos realcados, muito papelao com po de pedra para fazer uma caverna e da-lhe gelo seco para fazer nevoa. Desta precaria porem magica combinacao surgia ele, meu heroi das chamadas pre-estreias de domingo (no caso de seus filmes ,sempre no cine Brasil,que por ser um cinema grande, decadente e no centrao da cidade, era mais baixaria ainda e,portanto,melhor): Maciste,meu grande idolo de todos os tempos! Apesar de existir desde o tempo do cinema mudo,felizmente nossa convivencia se deu no final dos anos 50 e durou ,acho, ate meados dos anos 60, ja no ocaso de sua reluzente trajetoria.
Precursor,revolucionario, Maciste nao teve ainda,para minha tristeza, sua importancia historica reconhecida. Quem ,se nao ele, muito antes de todas aquelas americanas chatas e falantes ,lancou o movimento feminista? Nas suas historias ,as mulheres eram sempre governantes ditatoriais que, talvez por serem ninfomaniacas insatisfeitas,nao sei, colocavam infalivelmente os homens ( de tapa-sexo de pele de bicho e,claro, bezuntados tambem) empurrando, todos juntos , uma imensa roda de madeira ,debaixo de chicotadas e gritos ferozes por parte das chefes-em-comando,sem finalidade alguma; era simplesmente uma condenacao eterna, um castigo que eles mereciam por terem oprimido ,desde que o mundo e mundo, o sexo oposto.So isto, a meu ver, ja bastaria para coloca-lo ao lado dos grandes lideres da Historia.Mas ele ia alem: salvava as pobres criaturas aprisionadas e, grande estadista,promovia a conciliacao entre os generos.
Entretanto, a grande contribuicao de Maciste para as questoes contemporaneas que nos afligem , foi sua fantastica capacidade premonitoria sobre a camada de ozonio. Um genio. Em suas aventuras, o castigo para aquelas mocas moradoras das tais cavernas - tudo se passava nos subterraneos, uma especie de arquitetura de Oscar Niemeyer da Antiguidade- que se recusavam a ser pacificadas, era a exposicao a luz do sol. Batata! Todas iam secando, se enrugando horrivelmente e para nosso espanto,siderados nas cadeiras do cinema, viravam po! Nunca ate entao, o prejuizo causado pelos raios solares sobre a pele humana havia sido discutido; meu heroi deveria ter seu nome e retrato estampado em todas as embalagens de protetor solar : no lugar daquela menininha aborrecida com cara de sucrilhos, cujo cachorrinho puxa a calcinha para fazer propaganda do Copertone, por que nao Maciste com sua tanga selvagem? Talvez por possuir a modestia dos super herois ou a resignacao dos que sabem seus limites -teve varias de suas facanhas filmadas e hoje registradas no Google ou Wikipedia - a gloria eterna, o fugidio passaro dourado da consagracao,ele nao alcancou. Sua imagem nos registros mitologicos permanece no subsolo 3SS , ou seja, aquele local que , como os congressistas de Brasilia, voce,desce,desce e encontra um lugar iluminado por luzes fluorescentes, tapetes felpudos e um bando de gente com cara de perdedor.




Maciste,fotografado por Robert Mapplethorpe

Location:Vila del Rey