quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

O Sebo de Jacarépagua




Há algum tempo atrás um amigo queria , gentilmente,presentear-me com os 3 volumes dos Ensaios de Montaigne e apesar de ter procurado muito, não encontrou os livros. Um belo dia , me liga e diz: " Sabe onde os encontrei? Em um sebo em Jacarépagua"! Eu fiquei atônito; e Jacarépagua combina lá com sebo e com Montaigne? As palavras ficaram reverberando em minha cabeça ... " sebo em Jacarépagua, sebo em Jacarépagua" , até que a ficha caiu. Não seria um ótimo título de novela já que o Projac da Globo fica exatamente nesta região?Não, não seria uma história de conteúdo literário nem tampouco algum roteiro que envolva um dono de uma loja de livros velhos e antigos ( como o faz John Dunning , americano, autor de fascinantes romances policiais). O sebo , neste caso é a "prata da casa" mesmo, os atores de todo o sempre, bons profissionais mas que agora - ao contrário da gente, é claro- estão envelhecidíssimos! Tarcísio Meira, Regina Duarte, Francisco Cuoco, Glória Menezes ( a Pires também já está um pouco amatronada), Lima Duarte e tantos outros que compõem a Via Láctea da Emissora, reunidos sob este pomposo título: " O sebo de Jacarépaguá!", uma mini-série em tantos capítulos quantos forem possíveis ao elenco aguentar. A história , uma mistura dos vários sucessos anteriores,teria de ser absolutamente flexível devido às súbitas variações do estado de saúde da constelação de astros: " Fulano hoje não vem pois está atacado de artrite e não consegue dobrar o joelho" " Beltrana está com gota - comeu muita carne vermelha e está de repouso"...Personagens sumiriam inexplicavelmente devido à morte súbita de seu intérprete .E por aí vai. Fico imaginando um remake de "Selva da cidade "( ou será Cidade de Pedra? Não importa, acho que é Selva de Pedra) com Regina e Francisco, os protagonistas, andando devagarinho devido à idade ,por uma Avenida Paulista devastada e uma rua Augusta prostituída. Onde Tarcísio faria " Irmãos Coragem"? Na Baixada Fluminense? Ou no Complexo do Alemão?"Mulheres de Areia "não era aquela com duas irmãs, como sempre desde "Baby Jane",uma boa e outra má? Quais areias seriam nesta altura adequadas para as duas senhoras, já que a malvada foi castigada pela Providência Divina e está numa cadeira de rodas?Copacabana com cocô pra tudo quanto é lado ou a Barra com aquele ar de Miami com esgoto a céu aberto? Yoná Magalhães ( quem se lembra?) presa e incógnita dentro de uma burca em " Sheik de Agadir" filmado em uma duna onde se vê claramente ao fundo um tubo de gasoduto passando? E "Dancing Days"? Qual a graça em ver Sônia Braga - depois de tantas plásticas com cara de sobrinha -neta de Buda-dançando num vestidinho das lojas Marisa num baile Funk?
Coincidentemente, a Globo apresentou por estes dias um encontro destes célebres atores que fizeram a história da telenovela brasileira. Eu- que fiz recentemente 60 e portanto ingressei na terceira idade- preocupado que fico às vezes com meu próprio futuro roteiro,muito grato ao controle remoto do Tempo mudei depressa para o Canal Viva da Sky e vi Roque Santeiro com a viúva Porcina e Sinhôzinho Malta fresquinhos de dar gosto, saídos do forno.Que alívio! Depois , claro, fui me consolar nas páginas daquele que deu origem a este delírio: Montaigne ,isolado em sua torre escrevendo seus livros ,pelos quais permanece eternamente jovem e definitivamente imortal.

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quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

O Juízo Final









Eu ,que detesto calor, ficava particularmente horrorizado quando, menino pequeno, minha babá me dizia que o mundo já tinha acabado uma vez em água e , portanto, agora iria acabar em fogo. Rezava antes de dormir para que eu e minha família morrêssemos antes de mais este evento punitivo criado pela Igreja Católica. Como está provado aqui, não morri e sobrevivi a vários finais de mundo anunciados. Mas o negócio da catástrofe, assim como os "disaster movies" de Hollywood, parece não ter fim: estamos agora à espera de 2012, quando ,eu acho, segundo um calendário asteca o negócio desta vez vem mesmo . O que me leva a pensar em uma consequência imediata à esta catástrofe global: como será o Juízo Final?
Como organizar um evento de tais proporções envolvendo bilhões e bilhões de almas desde que o mundo é mundo? De que maneira convocá-las todas ?( não creio que seja um convite do tipo R.S.V.P- respondez s'il vous plaît) Um trovão ou um raio mágico que fará todos os mortos de todos os tempos se levantarem de seus túmulos? Sinais de fumaça vindo dos céus? Ou, aproveitando a tecnologia atual, raios lazer cruzando o espaço? Tenho dó do celestial promoter encarregado desta tarefa... Isto sem contar a questão do local; espíritos ocupam espaço? Onde ficariam todos os réus, pelo amor de Deus? Quanto aos assentos, não me preocupo: quem já foi a algum dos teatros do SESC em São Paulo, sabe que a falecida ( e portanto também ré) Lina Bo Bardi já cuidou disto, criando uns bancos de madeira sólida que um amigo, apropriadamente, chamou de " a Bauhaus da Inquisição ". Já que vai durar uma eternidade ,vai ser servida durante o julgamento alguma coisinha nem que seja um licorzinho de pequi? A turma da Inglaterra vai exigir chá e sanduíches de pepino?E os trajes? Black tie ( snob, anti-democrático), passeio completo ( como passar a eternidade engravatado ou em cima de um salto alto?) ou esporte fino? ( aquele que combina sapato com cinto, coroando tudo com um blaser, se possível com botões dourados, de jeito nenhum). Vai ver que , como sempre, vão adotar o camisão-hospício branco feito com pano ralinho, para que ,aparentemente ,tudo leve a crer que a justiça divina é cega, Brasília não existe e todos são iguais. Outro fator de extrema importância é a ordem de chamada; vai ser cronológica ou hierárquica? Quem vai primeiro, Ramsés II ou John Kennedy?Cleopatra ou Angelina Jolie? Já pensou, você lá na platéia, escutando tudo da boca da rainha egípcia? Marco Antônio era mesmo bom de cama? O que você fazia quando César tinha ataques epilépticos? ( " Protesto!") O que achou de Liz Taylor interpretando sua vida, a maquiagem não estava um pouco exagerada? Pode parecer bobagem ,já que tempo não vai faltar ,mas pobres coitados daqueles que ficarem para depois da audiência dos membros do PT... E o depoimento dos santos, auto-referencial ,cheio de elogios a eles mesmos e a narrativa de inumeráveis milagres e vantagens ? Que chatice infinita! Uma vez no Céu a gente vai ter que continuar convivendo com a família,, como já li uma vez em um livro de Chico Xavier?( "Vovó e mamãe estão aqui do meu lado e mandam um abraço daqui do Além...") E aquele seu parente insuportável, você vai ter que aguentá-lo na outra vida para sempre? Argh!
Michelangelo e vários outros artistas menos conhecidos do Renascimento já retrataram não só o Juízo Final como o seu resultado: os inocentes no bem bom e no fresquinho ao lado de Deus e os condenados com esgares de pavor sendo levados pelos mais diversos meios às chamas escaldantes do Inferno. Como acontecerá isto em termos práticos? A decisão do Júri- a Santíssima Trindade, imagino eu- vai dar o veredito coletivo ou individual? Deverá ser publicado um resultado oficial? Haverá um site específico? Tudo muito vago, difícil de imaginar este " Law and Order" de proporções cósmicas... Só sei que ,quando chegar a minha vez, farei o possível para ser conciso como manda a boa educação e contarei , claro, com a ajuda de alguns amigos não só para a minha defesa mas também para a acusação pois o veredito que eu desejo é híbrido e segue aquele velho ditado: " o céu pela temperatura e o inferno pela companhia"


A realidade com os bancos " Bauhaus da Inquisição"







A versão do Juízo idealizada por Michelângelo




Fernando M. Velloso
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Tels: 35811267 99 45 88 80
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segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

In vino veritas



Tem coisa mais chata do que gente que entende de vinho? Tem. Gente que entende e fala sobre vinho. Saudade daquela época que o chic era ir para a Europa ( leia-se Alemanha) fazer curso sobre os vinhos brancos do Reno... ( que eu saiba, cairam em desgraça, provavelmente depois de tomarmos tonéis das versões nacionais -"engarrafadas no Brasil" em recipientes verdes e às vezes azuis -servidos em coquetéis e ,sobretudo ,em noite de abertura de exposições de arte quando , via de regra , estava morno). Aqui na província , nos jantares e ocasiões mais solenes servia-se Bernard Taillan rosé( servia tanto para o peixe como para a carne) e era tão ruim que quando as vinícolas tupiniquins lançaram o Almadén foi um alívio geral.Que eu me lembre, excetuando-se os franceses ,os conhecidos mesmo eram Mateus Rosé , Grandjó ( branco) , Calamares , Santa Helena e um pouco mais tarde ,Valpolicella Bolla . Hoje mudou tudo; temos todos os vinhos do mundo disponíveis e vários cursos para quem se interessar em decifrá-los .Acredite, existe atualmente o Personal Sommelier para orientá-lo em suas compras e nas posteriores combinações da bebida e comida, atividade esta denominada Enogastronomia. Depois disto, de tanto escutar os adjetivos usados por esta turma, fiquei pensando em ampliar a história e usar o mesmo processo de qualificação para as pessoas em geral e ver como funcionaria. Já pensou, a mulher justificando a sua separação dizendo " meu marido era frutoso com um ligeiro toque de tabaco" ? Ou um advogado ao defender o seu cliente, argumentar que " é jovem , levemente cítrico mas inegavelmente honesto"?" É encorpado, tem um leve sabor de cedro mesclado com tomilho" diz uma amiga à outra ao descrever o namorado recém conquistado. No caso de criaturas ricas e/ou famosas é conveniente , antes de qualquer avaliação, arejá-las um pouco; o contato com o ar puro modificará o seu "caráter" e você corre o risco de se estrepar no seu julgamento. Tire delas uma ou duas peças de roupa, de preferência na parte superior do corpo e deixe-as descansar um pouco; em seguida coloque-as numa cadeira giratória que deve ser empurrada vagarosamente , não mais que quatro ou cinco vezes ,e você as terá como realmente são, em uma temperatura ambiente ou "chambré". Para testar sua consistência, incline o indivíduo ligeiramente e volte-o para a posição vertical : se permanecer corado , é de boa cepa. Considerando o tipo das uvas ou no caso ,a base do indivíduo, poderíamos por exemplo dizer, como em um desses manuais de auto-ajuda , que uma alma "Chardonnay" não quer compromisso , é articulada, ágil, diurna ,pretensiosamente chic e contemporânea . Já a "Merlot" é introvertida, pesada e se expressa em uma dramaticidade vazia: muita emoção, pouco conteúdo.E o horóscopo?" Você que é Cabernet Sauvingnon mantenha-se resguardado; dia quente e agitado impróprio para seu consumo. Já você que é Shiraz, os astros lhe recomendam uma viagem para a Austrália , onde deverá viver inesquecíveis momentos exóticos em terras distantes."
Minha idéia tem uma falha grave: seres humanos não são como vinho e podem muito bem contestar sua ,digamos, gustativa e olfativa opinião a respeito deles: "sabor de ameixa e pimentão com aroma de pimenta do reino e lavanda é a sua mãe!"
Saúde!






A alma Chardonnay







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sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Salve sua pele e livre-se do final de ano ( mais uma tentativa)



Como pertenço a uma família de psiquiatras- o que me leva a crer que sou uma espécie de " vingança da clientela" , ou seja , algum freguês não muito satisfeito rogou uma praga no clã- conheço bem os sintomas das doenças nervosas ou , pelo menos, das principais. Sendo assim, parece-me no mínimo curioso que tenha trocado anos de depressão, causada pelas festividades de final de ano, por uma outra manifestação não menos desagradável: paranóia! Tenho imaginado perseguições implacáveis por parte de um esquadrão israelense anti-prepúcio, uma espécie de Mossad urológico, uma Inquisição Judaica verificando em nome de Deus as genitálias alheias. Ser ou não ser circuncidado, eis a questão do meu terror desde que resolvi, informalmente , adotar o judaísmo como religião .Sem fé, ideologia ou convicção. Nada! A única razão que me levou a este ato insano foi, na verdade, escapar do Natal e Ano Novo.Maravilha das maravilhas ,caminho nas ruas , shoppings ou onde quer que seja, através de um mar de luzinhas em árvores, palmeiras, guirlandas , sem sentir coisa alguma.É fácil, basta pensar: esta é uma festa da cristandade, que eu desconheço e não me diz respeito.Magnífica e paradoxal sensação de isolamento, desajuste e alheamento , a tensão angustiante e enlouquecedora que antecede o final de ano não me atinge mais; ainda espero a vinda do Messias e meu Ano Novo tem uma data completamente diversa. Dois coelhos em uma só cajadada! Mas, como todo mundo sabe, as coisas não são tão fáceis assim... E o medo de ser descoberto como farsante , com meu pobre prepúcio em perigo mortal? Quando em local público, colo-me à parede do mictório , orando e desejando rapidez e eficiência no ato de urinar!A todo momento- eu vi filmes demais!- vislumbro hordas invasoras nos banheiros portando afiadas adagas e espadas com o intuito de punir os falsos devotos com uma rápido e decisivo golpe baixo .Leio a Bíblia, já tenho um kipá de veludo bem bonitinho e , se preciso for, uns cachinhos postiços de cabelo que darão ao meu rosto uma ênfase ortodoxa, na esperança de salvar estes pouquíssimos e preciosos centímetros de pele protetora.
Plano B: cortar o Bem pela raiz. Pegar um avião para Tel-Aviv ( coisa que jurei nunca mais fazer outra vez mas isto já é outra história) e de lá para Belém, passando por Jerusalém. Passar o Natal na igreja que está construída no exato local da manjedoura na qual nasceu Jesus ( é impressionante a precisão destes locais sacros em Israel, muitos séculos antes dos satélites e GPS )seria o antídoto perfeito para quem foge há anos exatamente deste evento! Como em "Laranja Mecânica", onde eu teria a religião no lugar de Bethoven; o Natal , no lugar da violência no filme de Kubrick ,seria extirpado do meu cérebro para sempre em uma lobotomia espiritual.Muito dramático e de acordo com a minha tendência, completamente cinematográfico .
O que fazer? Deixar a vida me levar? Comer croquetes de peru e pernil requentado no dia 25 ? Participar de festinhas de amigo oculto no dia 23? E a maratona no dia 24 , meia hora na ceia de meia dúzia de pessoas, provavelmente numa noite chuvosa? Nem pensar.
Dane-se o prepúcio; já marquei a cirurgia removedora, calculei o tempo de recuperação e reservei um bilhete( de ida) para Tel-Aviv. Se me virem no noticiário, envolvido em conflitos na Faixa de Gaza não lamentem: estarei correndo risco mortal mas definitivamente livre do Natal.



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Teste

Este é apenas um teste para verificar se o aplicativo, depois de tanto tempo sem uso, está funcionando bem.


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sábado, 13 de novembro de 2010

Todo cuidado é pouco

Alguém aí já teve como amigo um poderoso banqueiro ou pelo menos conviveu com algum? Se não, pelo menos já encontrou uma , duas ou três vezes com algum destes senhores? Eu já, e posso lhes dizer que é uma complicação danada, um aparato de blindagem para nenhum ditador do terceiro mundo botar defeito.
Uma vez em São Paulo, lá pelas tantas da madrugada, saindo de um jantar em casa de um amigo em comum, fui colocado em um carro com seguranças atrás do carro principal, onde se encontrava este tipo de vítima em potencial. Como me sentei na frente, puxei conversa com o motorista- moço simpático, lá pelos seus trinta, trinta e poucos anos- como sempre faço quando estou num táxi ou no carro de alguém desconhecido. Conversa vai, conversa vem e ele foi me contando sobre o seu emprego e o treinamento a que tinha sido submetido durante anos na Legião Estrangeira ,em Marselha, a fim de ocupar este cargo de tamanha responsabilidade. O nome desta, digamos, agremiação, me soou familiar mas - completo idiota- continuei encantado com a narrativa pedindo cada vez mais detalhes : murros , pancadaria e violência de todo tipo , alguns países africanos invadidos , nada me fazia desconfiar que havia alguma coisa terrivelmente errada ( seria alguma coisa na bebida?Falência completa dos neurônios?) Tanto perguntei e tanto ele se entusiasmou que acabou me explicando com detalhes a sua principal arma contra o Mal que tocaiava seus ricos empregadores: uma técnica de vigilância aprimorada, através da qual era capaz de olhar para todos os lados ao mesmo tempo, inclusive para cima (o homem era um verdadeiro periscópio). Por causa desta falação toda o pior desastre aconteceu: nos perdemos do carro à frente e dentro dele o patrão pelo qual ele, coitado, havia sofrido todos estes anos. O cara entrou em completo desespero e até hoje não sei como não me liquidou ali mesmo com suas próprias mãos assassinas. Chegamos finalmente ao hotel vários minutos depois da comitiva principal, tempo suficiente para ter acontecido mais ou menos uns onze ou doze tranquilhos sequestros .Meu amigo que estava comigo e ficou calado durante todo o trajeto, quando descemos do carro me falou indignado: " Pô, qual é a sua? O cara é mercenário e você dando papo, cumprimentando ele pelo sucesso na profissão? Você enlouqueceu"? Juro por tudo quanto é sagrado, foi só aí que a ficha caiu: eu confundi sua dramática e heróica história com uma série que eu assistia na TV, ainda menino,sobre uma fictícia divisão do exército britânico a serviço de Sua Majestade, na Índia( exceto em ocasiões especiais, igualmente vestidos em um uniforme caqui,quepe e um lenço na parte de trás da cabeça). Feliz da vida, o tempo todo acreditei estar conversando com um legítimo herdeiro dos inesquecíveis "Lanceiros de Bengala".
PS- se tivesse contado este caso à minha avó Anita ela ,certamente, teria perguntado aqui neste final : " Mas e o rapaz, perdeu o emprego"?




Os Lanceiros em seu uniforme de gala, pouco adequado para um segurança em São Paulo.





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quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Acredite se quiser

Oscar Wilde dizia que só uma pessoa superficial não julga pela aparência. Porém,há quem engane mesmo um juiz experiente.Eu, por exemplo, consigo ainda que sob uma avaliação criteriosa passar por um sujeito refinado. Quem me conhece de perto,entretanto, sabe que ,ao contrário,lá no meu recôncavo baiano tenho um gosto absolutamente comum.
Em matéria de gastronomia adoro tudo quanto é prato gratinado , salpicão ,maionese, e se bobear ainda acrescento uma farofinha nisto tudo.Acho laranja gelada na praia a melhor coisa do mundo e pastel de queijo com cerveja gelada eu encaro em qualquer lugar, mesmo que seja no colo da rainha da Inglaterra. Macarrão com tutu de feijão então eu acho o paraíso. Não entendo de vinhos e não giro a taça várias vezes para arejar a bebida como é de praxe entre os finos apreciadores.Detesto talheres para peixe e me recuso a usá-los.O gosto musical vai pelo mesmo caminho e minhas gravações são verdadeiras penteadeiras de puta,tem" de um tudo": Verdi a Roberto Carlos( sem sertanejos por que aí também já é sacanagem). O que eu posso fazer? Eu gosto da misturada, sem "estilo" definido. Escuto Amy Winehouse e logo depois me derreto com "Nem as paredes confesso" na voz de Amália Rodrigues. Minha cabeça é uma zona e , com certeza, tenho um pé lá também. Não resisto a uma feirinha vendendo badulaque : vou lá xeretar pra ver se compro alguma coisa ,sabendo que jamais saberei o que fazer com ela.No cinema já fui um especialista em filme B, pós -graduado em épicos, PHD em Maciste. Se fosse mulher eu seria uma perua feliz, não queria nem saber de discreção e muito menos de bom gosto : estaria coberto de brincos , pulseiras, anéis, colares e o diabo a quatro, da cabeça aos pés.Adoraria. Maquiagem farta , roupa justa ( só perfume doce é que não dá, nem reencarnando sete vezes),arriscaria até blusa de onça tomara-que-caia ou de um ombro só com corrente dourada para um lanchinho de tarde com as colegas, com direito a coxinha com catupiry e bombom de nozes( ou de uva?) Céu! Vou pro inferno por nunca ter lido Grande Sertão Veredas mas lá certamente encontrarei na ala vip com ar condicionado e caipirinha, Sidney Sheldon e Harold Robbins, meus amigos na adolescência.Sou fã de musical da Broadway ! Sonho com um carro conversivel, daqueles chamativos de dois lugares, que qualquer pessoa na meia idade com um pouco de discernimento acharia impróprio : uma manisfestação tardia de exibicionismo ou problema sexual mal resolvido.Falo demais e raramente consigo ser discreto sobre "aqueles" assuntos que as boas maneiras indicam ser melhor não se conversar a respeito.Uma lama.
De noite,às vezes, cubro a cabeça ressaqueado e me consolo com a elegância de Adélia Prado:
"A coisa mais fina do mundo é o sentimento".


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sábado, 6 de novembro de 2010

Uma biblioteca cosmetológica ( sugestão para mudar a cara do mundo)



Quando vi em um spam caído na minha caixa de correio a propaganda de um shampoo com o sugestivo nome de Esperança ( que promete uma abundante cabeleira a quem se arriscar a usá-lo), fui tentado pela idéia de que se poderia lançar no mercado um pout-pourri de produtos de beleza portadores de miraculosas possibilidades, uma espécie de Caixa de Pandora cosmetológica , repleta de enganadoras promessas de rejuvenecimento. Mais tarde,pensando melhor,achei que uma pequena " necessaire" associando literatura a algumas peças básicas essenciais à aparência estaria mais coerente com esta época de textos curtos, triturados e digeridos pela internet, onde quase ninguém mais se arrisca a pegar em um livro.A máscara da Cultura falsamente exibida sobre a pele me pareceu uma solução rápida e fascinante para a falta de conhecimento contemporânea Para as moças ,por exemplo, poderíamos sugerir um blush " Jane Austen" que lhes daria, através da cor rosada, um certo ar de timidez,pudor ou acabrunhamento que, por ser tão raro hoje, se tornaria incrivelmente atraente. Razão, sensibilidade, orgulho,preconceito? Bah, sem o recurso da maquiagem ninguém tem mais tempo para estas sutilezas que antes transpareciam ,naturalmente,no rubor das maçãs do rosto das donzelas do século dezenove.Batons " Anais Ninn" em lábios que buscam o homem sensível, em lugar de beiços inchados de silicone.Bocas femininas convidando ao prazer sem culpa em vez próteses dignas de exóticos peixes de aquário.Fórmula restauradora" Henry James",propícia para senhoras a serem em breve retratadas ou governantas esgotadas por questões de ordem espiritualista. Sombra para os olhos " Juliette Greco": existencialista, a pálpebra boêmia fornecendo à visão o sombreamento necessário para enxergar a vida em todas suas inúteis nuances.Para a praia loção hidratante "Iris Murdoch" que lhes permitirá, sem danos à cútis , contemplar o mar, o mar...
Para os cavalheiros, fixador de cabelos, loção após barba e desodorante? Nada disso.O homem hoje é metrosexual e usa dos recursos do embelezamento tanto quanto a mulher. Portanto, base discreta para corrigir manchas de pele" Philip Roth",o eterno animal agonizante, e creme para rugas" Ian Mc Ewan", especialista em reparação, a ser aplicado sómente aos sábados. Máscara reparadora de lama, embalada em caixa preta, diretamente dos kibutz de Israel," Amós Oz", fator de proteção sessenta para dias de sol desértico.E claro, a espuma dos dias " Boris Vian" capaz de proporcionar uma efêmera maciez ao seu barbear .
Não, nenhum destes items de minha hipotética cesta básica ocasionaria qualquer mudança no intelecto de seus usuários: só aquela epidérmica aparência, uma superficial e nostálgica ilusão de que o mundo devidamente maquiado , poderá parecer não tão ignorante assim.
Para mim ,que ando pouco vaidoso, só Esperança nos couro cabeludo desiludido, com a garantia de que jamais entrará,nocivamente,pela minha cabeça adentro .

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Sábado, o melhor dia para se usar o creme anti-rugas "Ian Mc Ewan".




Fórmula "Henry James": infalível rejuvenecimento às vésperas de um retrato.

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quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Impróprio para menores

De vez em quando é preciso que se dê nome aos bois: Pedro Pederneiras além de ser uma criatura adorável é um péssimo companheiro de quarto. Consegue ser mais bagunceiro do que eu( o que é um fato notável), acende a luz com a gente dormindo quando chega tarde do restaurante , liga a televisão até pegar no sono e dorme com ela ligada.
De todas as noites em que dividimos um quarto durante as tournées do Corpo, uma em especial foi muito divertida.O ritual foi o de sempre mas desta vez ,zapeando a TV, ele se deteve em um canal pornô. Um calor dos diabos, nós em um hotel em Paris que, como a grande maioria nesta cidade, tinha calefação mas não ar condicionado. Na telinha aquela peleja habitual: a imagem ruim em preto e branco mostrava uma loura de costas para os telespectadores sentada em cima de um homem deitado; ela subindo e descendo, gemendo como se estivesse num êxtase venéreo, fingindo gostar daquilo que mais parecia uma nova modalidade de ginástica aeróbica praticada com o seu "personal".Meu companheiro,impávido, parecia estar apreciando a coreografia ou, pelo menos ,achando-a monótona o suficiente para puxar o sono. Estes filmes, graças ao treino dos profissionais envolvidos na labuta ,demoram muitas horas a mais que um simples mortal conseguiria resistir neste embate corpo a corpo.E assim o tempo foi passando. O engraçado era que eles não mudavam de posição, como é de costume: a moça cavalgando no maior galope e o moço lá parado,tentando fazer uma expressão de doce deleite. Só que ,de repente, a genitália da moça, silhuetada, começou a se mexer e eu levei um susto danado; abaixava, ia pro lado, uma coisa sensacional! Mas , como assim, muda de posição e despenca? me perguntei estupefato .Longe da minha praia , fiquei encolhido como um coelho vendo ,pela primeira vez, algo novo e fascinante sobre a anatomia feminina. Morri de vontade mas, com medo da reação, nem cogitei em pedir para o meu amigo me explicar o fenômeno que estava se passando ali bem na nossa frente. E geme , e suspira , e sobe, e joga a cabeça pra trás e aquele negócio que não acaba nunca e os dois patetas, madrugada adentro, acordados e sofrendo com a temperatura de verão. Entregue em um estado de torpor semi-comatoso , já estava resignado com meu destino, no que fui ,miraculosamente, salvo pelo gongo ( ou algo bem semelhante)quando o Pedro gritou: " pu(#%?€£)ta que o pa(&@"£¥€)riu!!! É um homem!!! Que alívio, meu Deus!!! Estava tudo explicado.Diante desta visão cósmica , transcendental e esclarecedora apagamos a luz e fomos dormir, ele danado da vida. Eu no escuro pensei antes de fechar os olhos: " Ora,vejam só, bolas!"





A TV, após o dilúvio.



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terça-feira, 2 de novembro de 2010

Morte na boate gay

Há três maneiras, pelo menos, de não se deixar abater por uma boate gay e a mais eficiente delas é, sem dúvida, ser heterosexual. Se não é este o seu caso, escute meus conselhos: vá com uma turma divertida, fique bêbado ou assista a um filme que, mesmo sendo muito chato, livrará você de coisa pior. Como não tive escapatória, optei pelo último item.
Estávamos acabando um ótimo jantar, destes em que se bebe muito e depois do café se sonha com uma boa cama no hotel , dentes escovados, abajur e um bom livro, quando um convidado , a quem por amizade e dever profissional eu estava ciceroneando no Rio, me disse : hoje é sábado e, como você havia me prometido, nós vamos a uma boate gay. Le Boy ( eu sabia) aqui vamos nós, às duas e meia da manhã.Chegamos,descemos uma escada e antes de chegarmos ao seu final meu acompanhante arrancou sua camisa, girando-a no ar como em um rodeio , e exibiu uma invejável barriguinha sob "aquela" camiseta de alças, tipo marinheiro.O impacto foi rapidamente absorvido em função da cena seguinte:contratados pela casa , numa relação explícita de custo-benefício, havia um bando de homens nus perfilados sobre o balcão do bar acometidos de um priapismo pudico,coberto com uma toalha de rosto ou coisa que o valha.Mais adiante a pista de danças, ponto central de tudo, picadeiro onde fantásticas contorções aconteciam após os "dançarinos" terem ensaiado por alguns minutos, a sós, nos espelhos ao lado. E eu lá, entediado, de vez em quando espiando meu hóspede na pista de danças tal e qual um John Travolta tardio.De repente, não mais que de repente , um milagre: no telão negro que cobria o palco ( naquela noite desativado ) vi três letrinhas luminosas no canto esquerdo superior que me pareceram ,naquele momento, a salvação eterna: HBO. Louvado seja, era um telão!!! Como nada é perfeito - e aquele lugar parecia ser a prova máxima disto- o filme era ..." O Senhor dos Anéis"! Meu Deus! Como assistir ( ainda que só a primeira parte) aquela saga interminável cheia de seres fantásticos com orelhas enormes apontando para cristas na cabeça, fadas benignas morando em casas com floridas treliças brancas e intraterrenos, todos dialogando sem som acima de uma multidão dançando freneticamente? Fiquei pensando: será que Tolkien, o autor do livro, era gay e sua história, na verdade, uma propaganda subliminar?Estaria Peter Jackson,o diretor, fazendo através de uma metáfora, proselitismo a favor das minorias sexuais , uma espécie de manifesto cinematográfico pró Organização para Libertação dos Gays Medievais? Seria Frodo um homosexual enrustido ou um pré-adolescente vítima de pedófilos barbudos de camisolão,daqueles que soltam raios com o bastão?Quem sabe eu ,equivocadamente,estaria em mais um "espaço cultural alternativo"? Atormentado por estas dúvidas passei, desde então, a reconsiderar estes clubes noturnos, atribuindo-lhes uma inesperada função pedagógica ( argh!). Fiquei até com vontade de voltar lá uma outra vez e pedir ao proprietário que passasse, noite após noite, todos os meus filmes preferidos a fim de tentar descobrir neles uma nova leitura e uma mensagem oculta. Já pensou " Morte em Veneza" de Visconti exibido ali? Por uma razão ou por outra, aposto como a pista ia ficar vaziinha.




A platéia , concentrada, durante a sessão de "O Senhor dos Anéis"



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segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Sobrevivência na Amazônia: uma questão fora de moda

Lá fora um calor de trinta e cinco graus ( ameno para a região) mas ela, beneficiada pelo ar condicionado , montou em seu quarto uma mesa e uma arara com suas roupas da grife Maria Bonita em linho e seda - vinte e seis quilos para ser mais exato, como pude verificar ao pesar sua mala no check-in de volta- e estava satisfeita da vida passando-as quando chegamos ao hotel para encontrá-la.
( o cenário é o Hotel Tropical de Manaus onde estive por uns dias com um grupo de amigos , todos ali pela primeira vez, para conhecer a floresta amazônica).Para estes poucos dias que passamos lá, nossa amiga , muito chic, achou adequada esta singela coleção que ,além de ter sido confeccionada em materiais leves, tinha uma sutil gradação de tons do rosa seco ao branco. E foi usando uma composição feita de sobreposições de algumas destas peças, acrescida de um chapéu tipo explorador em palha finíssima que eu havia lhe dado há muitos anos atrás e que usava pela primeira vez, que embarcou junto ao resto do grupo em uma voadeira que aluguei para passearmos pelo rio, mata adentro. Curiosa que é, e fascinada pela magnífica paisagem, postou-se bem à frente da pequena embarcação, tal qual uma elegantíssima carranca , disposta a não perder nada.Lamento informar que não foi uma idéia feliz: o Rio Negro, cor de Coca-Cola, estava transbordando, jogando muito água e alguns peixes dentro do nosso barquinho que, como o nome indica, é rasinho a fim de deslizar mais rapidamente. Quinze minutos e algumas centenas de metros depois, estávamos todos encharcados e a nossa figura de proa gritava ,como ela mesma costuma dizer, num misto de horror e fascínio: "Eu estou ensopaaaada!" Meu amigo americano achando muita graça na situação, mas ao mesmo tempo preocupado, queria muito saber o que significava aquela palavra tantas vezes repetida e se,por acaso, indicava alguma coisa grave: ensopada. Daí pra frente a história não melhorou muito pois teve índio na canoa trazendo sucuri negra de onze metros mais alguns bichos-preguiça para impressionar a nós , turistas, um pouco antes de encalharmos em um igarapé, onde fomos gentilmente informados pelo barqueiro- com um senso de oportunidade extrordinário- ter sido aquele exatamente o local de filmagem de "Anaconda", aquela história onde o tamanho da cobra é inversamente proporcional à qualidade do filme. Voltamos "pra casa" literalmente exaustos, maltrapilhos e molhados.Vencida pela Mãe Natureza- insensível aos caprichos da moda- toda aquela soma de texturas e tonalidades da roupa que antes enfeitara por alguns instantes apenas nossa aventura ,tinha se transformado em uma massaroca só.
As expectativas foram saciadas: o Amazonas e sua floresta são magníficos e implacáveis.Todavia, o que nos marcou e ajudou a tornar a viagem de nosso acompanhante estrangeiro inesquecível, foi o nosso transtorno pluvial e a palavra que jamais deve ter sido dita outra vez mas que, tenho certeza, estará para sempre em sua memória ; ao passar pela polícia federal rumo aos Estados Unidos, ele de lá gritou: "Ensopada!!!!"




Nosso quartel general em Manaus




O Amazonas e sua floresta: invencíveis.


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sábado, 30 de outubro de 2010

A festa de Brennand: um "mico" faraônico

Imagino que tenha passado pela cabeça de Cecil B. DeMille a possibilidade de filmar sua super produção, " Os Dez Mandamentos" ,em um país tropical - talvez pelas dunas nordestinas ou pela taxa menor de impostos, sei lá- e ele ligou para Francisco Brennand lhe pedindo que desenhasse e construisse parte dos cenários ,aqueles mais grandiosos reservados à história passada no reino dos faraós.Só assim é possível explicar as dimensões ,o acúmulo de peças monumentais, fontes e efeitos de luz que definem seu atelier de cerâmica nos arredores de Recife.E foi aí , fazendo a mais humilde figuração, que paguei um dos maiores micos da minha vida: um jantar para 1200 membros da aristocracia rural nordestina, todos devidamente paramentados , assentados em mesas à luz de velas com orquestra tocando, e nós, eu e meu amigo Joe, vestidos com roupa de praia, como naqueles pesadelos que a gente sonha que está nú no meio da rua. A história que antecede este mal entendido é a seguinte: eu trabalhava com uma galeria em Recife cuja proprietária, Cecília, pertence à esta poderosa e tradicional família de Pernambuco. Passávamos uma temporada de férias na cidade e num de nossos encontros , o convite foi feito por ela, minha marchande, com muita simplicidade:" Temos amanhã a festa de casamento de uma sobrinha; vocês não gostariam de ir"? " Gostaríamos", respondemos, na falta de outro programa mais interessante e também por não querer ser indelicados com a nossa cicerone.
O Joe, pela prática que adquiriu mundo afora, viaja com uma mala tão pequena que é levada dentro do avião ( para , sabiamente, evitar a espera da bagagem nas esteiras); dentro dela, no máximo, umas duas calças, um outro par de bermudas e , imagino ,umas 4 camisas.E só. Eu, que já levei até terno de panamá branco para o Arraial de Ajuda (!!!) , estava tentando mais ou menos acompanhá-lo nesta rigorosa contenção e não carreguei na bagagem nem um paletózinho sequer. Trágico engano.Quando descemos ao hall e encontramos nossa amiga nos aguardando a bordo de um vestido de paêtes e jóias ofuscantes ,percebi que havia alguma coisa terrivelmente errada, mas nada nos foi dito a respeito de nossos leves trajes primavera-verão.Fomos no seu carro e algum tempo depois ,a alguns quilômetros do "evento", ao ver tochas de fogo ao longo de todo o caminho já tive a certeza do equívoco cometido , sensação confirmada na chegada com o pequeno exército de manobristas uniformizados que nos aguardava,em número quase tão grande quanto o de convidados. E fomos nós , festa adentro, com um ar terrível de penetras, a julgar pela cara com que nos olhavam. Era batata: a mesa que a gente se assentava, as pessoas se levantavam; algumas senhoras , às vezes esqueciam suas bolsas e voltavam correndo para salvá-las dos dois vândalos.Foi numa destas inúmeras manifestações de rejeição por parte destes senhores canavieiros que tomamos a decisão: vamos nos embriagar imediatamente. Um whisky após o outro e , propositalmente, quase nada de comida para acompanhar. Deu certo, mas o resultado não poderia ter sido pior: a orquestra fez um intervalo, colocaram música gravada e meu acompanhante,antes que eu pudesse impedi-lo, fez um show solo ao som de " Dancing Queen" ( um hit de discoteca) no meio da pista de danças que , por sinal,era de grama artificial. Era a hora do Êxodo, não havia a menor dúvida. Nossa anfitriã, tal qual um Moisés ainda usando roupas da corte egípcia, nos acompanhou até a saída e com ela atravessamos o deserto e cruzamos o Mar Vermelho em direção à cama prometida no nosso hotel.
The End.



Não é a cara dos " Dez Mandamentos"?



O cenário do "mico" aristocrático-rural


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sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Sally Bowles

Engraçado como a gente nota certos detalhes nada lisonjeiros na pessoa, depois que a paixão acaba : a pele do rosto um pouco suada , uma barriga ligeiramente proeminente e até mesmo um vestido mal feito e mal acabado.Foi o que aconteceu outro dia comigo em relação a Sally Bowles,quando a revi cantando "Life is a cabaret" no Youtube, depois de anos de afastamento, em consequência de um longo e sofrido romance: ela, Liza Minelli, atuando em Cabaret lá na tela ,e eu cá, devoto apaixonado , na platéia. Onze vezes eu fui vê-la; decorei todas as músicas, os diálogos e , não satisfeito, ouvia o disco da trilha do filme no meu quarto à noite. Meu Deus , como éramos íntimos! Ela cantava para mim, músicas que tinham sido escritas para nós. Almas gêmeas predestinadas ,um encontro escrito nas estrelas: fomos feitos um para o outro! Pelo menos era o que eu pensava até que ela , Liza ,resolveu vir ao Brasil e com isto me desconcertou profundamente. Antes de Woody Allen criar " A Rosa Púrpura do Cairo" em 1985, eu iria viver ,nos anos setenta, uma experiência equivalente e premonitória: minha amada sairia das telas e viria ao meu encontro nos trópicos. Arrumei a mala, coração disparado, e fui para o Rio de Janeiro encontrá-la no Teatro do Hotel Nacional em São Conrado.Sabe que eu quase não aproveitei ? Ela ali no palco, cantando e dançando ao vivo, foi demais para mim; voltei à dimensão anterior e me comportei como se estivesse vendo no cinema o seu show "Liza com Z", protegido por aquela película finíssima que impede que toquemos com as mãos as nossas fantasias , preservando-as como sonhos inatingíveis .Mas ,não, não era para ser assim tão poético: no dia seguinte fui ver o show dos Dzi Croquettes ,um grupo de bailarinos e atores, proposital e caricaturalmente travestidos- contracultura na época da ditadura militar-comandados por Leny Dale, um dançarino extraordinário,uma celebridade e um amigo de... Liza Minelli que, por sua vez , estava lá também e sentou-se bem na minha frente na poltrona de um pequeno teatro em Ipanema. Agora eu podia tocar aquele redemoinho que Sally tinha nos cabelos, a menos de 50cm dos meus dedos. Conflito, rejeição, frustação, minha pobre cabeça parecia um pequeno compêndio de distúrbios emocionais , a quilômetros de distância da pessoa que ,paradoxalmente,eu considerava a mais próxima de todas. Não deu outra : fiquei ali paralisado, olhando para a parte de trás de sua cabeça e nem nunca soube do que se tratava o show que tinha ido assistir. Algumas horas mais tarde, sugestionado pelo grupo de amigos que estava comigo, fiquei em pé na calçada esperando que ela saísse, dando uma última chance ao nosso amor impossível que, ao contrário do desejado, iria acabar ali mesmo, em alguns instantes.Quando ela apareceu ( coberta de purpurina, imagino que depois abraçar os bailarinos no camarim), passou por mim como um trator. Eu,atônito, tentando balbuciar alguma coisa, tive uma resposta mais que negativa a uma tentativa de aproximação e a um suposto pedido de autógrafo : " Não tenho caneta, não tenho caneta", berrou ela, seguindo em frente em direção ao carro que a esperava.
Antes de sair do ar, não sei porque , pensei na célebre frase de Eça de Queiroz:
" O manto diáfano da fantasia que cobre a nudez crua da verdade".








Minha amada em pleno exercício de sua função em " Cabaret"



Os "Dzi Croquettes"

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quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Não perca a cabeça, seja democrático.


Quando fui,mesmo que por uma única vez ,em uma reunião de condomínio,numa reunião de pais na escola ou em qualquer outra atividade que envolvesse um grupo de pessoas, sempre me lembrei da frase dita por Charles I,rei da Inglaterra (no cinema representado por Alec Guiness) minutos antes de ser decapitado, em 1649 : " A democracia é uma invenção leviana dos gregos, baseada na crença de que se pode fazer coisas extraordinárias com pessoas absolutamente comuns" .No primeiro exemplo citado acima, me lembro bem, moradores veementes e participantes, democraticamente discutiram durante mais ou menos três horas se a varadinha do apartamento deveria ser lavada com vassoura , água e sabão ou apenas limpa com pano molhado; o instigante debate se encerrou ( sem solução) ,entusiasticamente, com um sorteio de vagas na garagem. No segundo caso, houve mais criatividade: nós (as vítimas) fomos colocados sentados em círculo e intimados a jogar um rolo de barbante pelo chão.Quando vi este deslizante objeto se dirigindo a meus pés -esta era a regra do jogo- e que,tão logo fosse alcançado por ele, teria de dizer quem era eu, o que pensei foi o seguinte:
" Boa tarde, sou uma pessoa antiquada e antidemocrática.
Penso como "as elite": sinto falta de glamour.Detesto aeroportos lotados com cara de rodoviária em final de ano e se for para ir de navio ,prefiro um ambiente a bordo como " La nave va" de Fellini em vez de tirar foto no celular com o capitão;em terra firme, sou carente de uma boa livraria que não venda artigos escolares , mochilas e brinquedos de plástico e tenho saudade de cinemas fora de shoppings, onde podíamos ver um filme sem ter a sensação de estar interrompendo uma orgia infanto-juvenil regada a pipoca e refrigerante.Gosto daquela praia vazia, sem música axé tocada no volume máximo, e onde o dono do único boteco leva bebidas e tira-gostos pra gente na areia.Não participo de "churrascos" , uma atividade social execrável, com todos aqueles maridos de shorts levando tirinhas de picanha para suas esposas ; tenho a convicção de que se o ágape for em sítio, com larajanreiras de tronco pintado de branco, deveria ser permitida , por lei, a eutanásia.Associações e clubes, nem pensar. Também, senhores pais e professores, ainda conjugo,quando necessário, verbos no presente do subjuntivo e nem sob tortura "vou estar fazendo" uso do gerundismo adquirido na internet ( que, a meu ver, pressupõe um transtorno obssessivo-compulsivo do sujeito, o qual deverá praticar a ação sem parar até o final dos tempos). Sou mais Atenas do que Esparta, isto é , gosto imensamente de ler, mas luto, dentro ou fora das academias, com o suplício da atividade física ( o que poderá ocasionar ,num futuro próximo, uma cultura literária razoável acompanhada de uma generalizada atrofia muscular); não faço yoga -principalmente com o recente acento circunflexo no "o"- mesmo se isto salvasse a minha alma do Inferno ( o que seria , de qualquer maneira, pouco provável).Para terminar, não acredito em terapia de grupo, criação em equipe ( segundo o Millôr, daí resultou a existência do camelo) e muito menos em chatíssimas reuniões escolares como esta".
Claro que eu não fiz nada disto. Quando, finalmente, senti a esperada batidinha no meu calcanhar, mantive minha cabeça no lugar e lhes disse apenas a minha profissão: "Sou pintor".






Meu retrato: antiquado e antidemocrático.

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terça-feira, 26 de outubro de 2010

Esprit de Corps

Quando foi criado em 1975, o nome escolhido teve um duplo sentido:obviamente se referia ao corpo humano como ferramenta da dança mas também à idéia de conjunto, um grupo de pessoas unidas como partes de um todo, em função de um conceito e de um belo trabalho: Grupo Corpo Companhia de Dança.
A partir de 1992 , com "21" ( música Uakti), fez-se algo novo na dança do nosso país: as trilhas musicais usadas em seus espetáculos passaram a ser especialmente compostas por grandes músicos brasileiros e o vocabulário coreográfico que resultou daí, pelas mãos de Rodrigo e Paulo, foi -e continua sendo- igualmente inovador. Colaboradores de áreas diferentes foram chamados para criar cenário, figurino, iluminação,design gráfico, etc, e deram ao Grupo uma identidade visual que se tornou sua marca registrada. Curiosamente, há mais de 50 anos antes disto tudo acontecer, Diaghilev não fazia coisa muito diferente com a sua companhia " Ballets Russes". Em uma destas sincronicidades junguianas ( ou se preferir , coincidências do tipo "nada acontece por acaso"), abri o livro "Art of our Century", há tempos abandonado na estante, exatamente na página que mostra, na transcrição de uma matéria de 1924, a estréia de seu novo trabalho , "Blue Train" , no Théâtre des Champs Élisées em Paris. Depois de escandalizar as platéias com espetáculos como " L'après midi d'un faune"( onde Nijinsky simulou um ato sexual em cena), desta vez ele escolheu como tema o trem expresso que ligava a capital francesa à Riviera e o deleite de seus passageiros nas praias do litoral mediterrâneo. A turma que ele convocou foi a seguinte: o libretto foi encomendado a Jean Cocteau , a música composta por Darius Milhaud e a coreografia coube a Bonisklava Nijinska ( irmã de Nijinsky). O cenário ficou a cargo do escultor cubista Henri Laurens e o figurino foi feito por Gabrielle (Coco) Chanel. Picasso,que fez desenhos para ilustrar o programa, ficou impressionado com o efeito da cortina do proscênio, uma enorme reprodução de uma pintura sua feita alguns anos antes, "A corrida". Todo o mundo estava lá.
Não por coincidência, mas pelo mérito de sua obra, o Corpo vai se apresentar mais uma vez, no próximo mês , no mesmo palco do Théâtre des Champs Élisées, na elegantíssima Avenue Montaigne. Entretanto, não vai encontrar ,com certeza, o ambiente pós Belle Époque que povoava a cidade e as platéias do teatro nas apresentações do balé russo ,oitenta e seis anos antes. Depois de passar por aeroportos lotados e rígidos esquemas de segurança, vai enfrentar,sim, uma população agitada, fazendo greves e passeatas, protestando contra a política de Nicolas Sarkosy.
Fazer o que? C'est la vie.




" Blue Train"- 1924





Detalhe da cortina : Picasso , "A corrida".

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sexta-feira, 22 de outubro de 2010

As férias dos meus sonhos: uma temporada no inferno

O negócio é aquela renazinha maldita .Quando eu passo na frente da casa em um condomínio próximo ao meu e a vejo em sua armação de ferro envolta em fios verdes, sinto que estou perdido: faltam alguns dias apenas para que ela seja acesa com aquelas luzinhas pequenininhas e imediatamente declarada aberta a temporada do Natal ( a de caça , neste caso seria um alívio). Não é sómente a celebração da data do nascimento de Cristo que marca esta época, mas, principalmente, todo um longo período de torturantes preparações que a antecede. Engana-se aquele felizardo, que tem em sua casa apenas um jantar tranquilho com um peru na mesa e um presépio ao lado, ao supor que seja este o comportamento geral. Não! A grande maioria das pessoas sente pânico neste período de compras, chuvas , engarrafamentos e,nos casos mais graves como o meu , começa a elaborar a sua fuga e cavar seu túnel desde o primeiro semestre. Planejo , procuro conciliar interesses e possibilidades, pois levo sempre comigo um filho ,atualmente com onze anos, e uma mãe de noventa, recém completados. Nem a Mulher Incrível possui tal elasticidade turístico-social e eu- que não tenho super poderes nem nada- fracasso todo ano em meus projetos, flagrantemente.
Araxá? Tem termas para os mais velhos,local tranquilho e bucólico, com monitores que cuidam das crianças o dia inteiro.Perfeito. E eu? Eu, certamente, vou ler- é o que sempre penso- e vai estar tudo bem. Quando cheguei e me vi diante de uma fachada de um prédio digna do hotel de " O Iluminado", senti uma fincada no estômago; o beliscão no peito que sempre anda junto a esta outra dor, veio logo em seguida quando fomos levados aos quartos através de longos,desertos e escuros corredores atapetados, que me deram a certeza plena de estar ingressando ,de forma definitiva, no sanatório de tuberculosos de " A montanha mágica". Quando enxerguei da varanda do quarto ,uma imensa e frenética multidão desembarcando de dezenas de ônibus de turismo, paguei uma rodada tripla , com intenção de me matar por afogamento, imerso no " banho de pérolas".Debalde. Ninguém sai de cena assim, impunemente: aqui se paga,aqui se faz!
No ano seguinte optei por um programa mais alegre e glamoroso: o tal do cruzeiro marítimo! Claro, foi ainda pior: aprisionado em uma espécie de Miami genérica e flutuante, não havia como escapar dali a não ser através de um derradeiro e fatal mergulho em alto mar. Bingo em castelhano ( com microfone) ao redor da piscina, antecedendo uma aula de axé, me pareceu uma paródia engraçada, algo assim como a classe média vai ao Paraíso,paradoxalmente, menos suave e divertida do que uma temporada no Inferno E a comida , já incluída nestes pacotes? Como os cozinheiros do (agora sob reforma) Hotel Glória no Rio, os chefs são divas da anti- culinária , capazes de estragar uma simples salada de folhas e servir algo impossível como uma pizza queimada em baixo e crua em cima.Gênios do Mal.
O reveillon " a bordo" é inesquecível: uma massa humana munida de taças de champagne morno e adocicado, vagando a esmo pelos decks e ao redor das piscinas, loucos para celebrar algo que não aconteceu, esperando um Godot que não virá ,prontos para um êxtase sem motivação, olhando rumo a um horizonte sem nenhuma renovação à vista. O apogeu veio à meia- noite: quando o navio começou a apitar de uma forma insistente e enlouquecedora, não tive dúvidas que estávamos afundando, sem sequer o consolo da consagração póstuma de um Titanic ; todos lá, patéticos, de branco e vestidos bordados de dourado destinados a ficar boiando em águas tropicais. Morte inglória.
Com a chegada de Novembro, a aflição começa a me dominar: dou a volta, passo pela rua ao lado mas sei que, mais cedo ou mais tarde, ela- meu algoz, a rena- estará lá,inabalável,resplandescente, vaticinando o meu infortúnio e, com certeza , mais um passeio de mãos dadas entre as chamas, não como Dante e Beatriz, mas com o demo em pessoa.




Já a caráter para a próxima viagem: Canoa Quebrada.

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Terapia em Pompéia : um "insight...

Foi nas diversas versões cinematográficas dos últimos dias de Pompéia que "eu me encontrei." Cruel contra-ponto, considerando aqueles cidadãos perdidos, em desespero com a iminente erupção do vulcão, correndo desesperançosos, agarrados às suas ânforas,às suas crianças e aos seus leitões enquanto,ao fundo, reinava solene o telão cenográfico, reproduzindo a paisagem causadora de tanta desgraça: várias montanhas e em meio a elas o impávido colosso, o Vesúvio, indiferente a tudo, gozando com antecedência o momento em que ,brevemente, iria expelir a larva devoradora da carne das pobres e desvalidas criaturas.O mais estranho era que, apesar de todo o empenho do diretor de arte ,a cena sempre se passava em dois níveis - ou dois planos - quer dizer, não havia jeito daquela população desorientada se juntar, objetiva e subjetivamente, àquela pintura ameaçadora; faziam cara de aflição,esgares de terror,mas nada fundia aquela gente à reprodução longínqua que regia a cena em questão: os derradeiros momentos de uma cidade ameaçada de extinção. Eles lá, morrendo um a um, e aquele grande monte com neve no topo e fumacinha saindo, na maior calma, em um aparente grau de espiritualidade elevado, inalcançável pelos mortais defronte, vassalos à sua mercê, vítimas de sua índole assassina. Depois de vivenciar fobias, pensamentos mágicos e transtornos obssessivos em outros filmes históricos de baixíssimo orçamento, desta vez o insight foi outro: entendi bem, naquela minha poltrona-divã , a extensão do significado de solidão, desajuste e rejeição. Uma grande indiferença no estúdio ao seu redor e você lá, em seus extertores finais, frente ao seu destino fatal ,alvo da zombaria e do capricho dos deuses,incapaz de se "inserir no contexto" . Justiça seja feita a todos estes extras, estes integrantes do segundo escalão, vítimas de uma esquizofrenia cênica que ,mesmo vivendo esta disparidade- atores e cenários flutuando em esferas distintas- tinham em seus rostos a expressão perplexa dos que vão morrer , cientes talvez de que na " vida real", mais cedo ou mais tarde, de um jeito ou de outro, a coisa será pra valer.

Muito tempo depois, em um viagem de carro pela Itália, passei em frente a Pompéia e , inexplicavelmente, não entrei ali para visitar suas ruínas. Após anos de arrependimento por este descaso repentino, hoje tenho uma visão mais clara e menos culpada do que aconteceu: obcecado pela psicologia barata com me deliciei no meu passado, o que se passou ali,verdadeiramente, há muitos séculos, não tinha,na realidade, nada a ver comigo. O que eu gostava mesmo era de ficar ali no cinema, obilubilado diante de um filme B, " em busca de minha verdade interior".

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Terapia em Pompéia : um "insight" arqueológico

Foi nas diversas versões cinematográficas dos últimos dias de Pompéia que "eu me encontrei." Cruel contra-ponto, considerando aqueles cidadãos perdidos, em desespero com a iminente erupção do vulcão, correndo desesperançosos, agarrados às suas ânforas,às suas crianças e aos seus leitões enquanto,ao fundo, reinava solene o telão cenográfico, reproduzindo a paisagem causadora de tanta desgraça: várias montanhas e em meio a elas o impávido colosso, o Vesúvio, indiferente a tudo, gozando com antecedência o momento em que ,brevemente, iria expelir a larva devoradora da carne das pobres e desvalidas criaturas.O mais estranho era que, apesar de todo o empenho do diretor de arte ,a cena sempre se passava em dois níveis - ou dois planos - quer dizer, não havia jeito daquela população desorientada se juntar, objetiva e subjetivamente, àquela pintura ameaçadora; faziam cara de aflição,esgares de terror,mas nada fundia aquela gente à reprodução longínqua que regia a cena em questão: os derradeiros momentos de uma cidade ameaçada de extinção. Eles lá, morrendo um a um, e aquele grande monte com neve no topo e fumacinha saindo, na maior calma, em um aparente grau de espiritualidade elevado, inalcançável pelos mortais defronte, vassalos à sua mercê, vítimas de sua índole assassina. Depois de vivenciar fobias, pensamentos mágicos e transtornos obssessivos em outros filmes históricos de baixíssimo orçamento, desta vez o insight foi outro: entendi bem, naquela minha poltrona-divã , a extensão do significado de solidão, desajuste e rejeição. Uma grande indiferença no estúdio ao seu redor e você lá, em seus extertores finais, frente ao seu destino fatal ,alvo da zombaria e do capricho dos deuses,incapaz de se "inserir no contexto" . Justiça seja feita a todos estes extras, estes integrantes do segundo escalão, vítimas de uma esquizofrenia cênica que ,mesmo vivendo esta disparidade- atores e cenários flutuando em esferas distintas- tinham em seus rostos a expressão perplexa dos que vão morrer , cientes talvez de que na " vida real", mais cedo ou mais tarde, de um jeito ou de outro, a coisa será pra valer.
Muito tempo depois, em um viagem de carro pela Itália, passei em frente a Pompéia e , inexplicavelmente, não entrei ali para visitar suas ruínas. Após anos de arrependimento por este descaso repentino, hoje tenho uma visão mais clara e menos culpada do que aconteceu: obcecado pela psicologia barata com me deliciei no meu passado, o que se passou ali,verdadeiramente, há muitos séculos, não tinha,na realidade, nada a ver comigo. O que eu gostava mesmo era de ficar ali no cinema, obilubilado diante de um filme B, " em busca de minha verdade interior".






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sábado, 16 de outubro de 2010

Cega obssessão: o preço de uma boa ação

"Toda boa ação tem seu preço", reza o sábio ditado. Ajudar os outros é uma coisa complicada e nem sempre dá certo,todo mundo sabe.Muitas vezes, é dar tiro no próprio pé. Meu pai,que foi um homem generoso e que gostava muito de ajudar todo mundo,cético que era,achava que a gratidão é gerada pela expectativa de novos favores a serem obtidos.Sem essa esperança, neca.Como se diz hoje em dia na idiotice da linguagem globalizada da internet , boa ação não dá retorno e nem tampouco agrega valores. Burrice igual, "Procure investir em si mesmo!", berram os manuais de auto-ajuda contemporâneos.Para manter as minhas considerações nesta ausência de profundidade que lá vem vindo aqui no texto, talvez haja, no final das contas, uma certa sabedoria na indiferença de todo mundo em relação aos problemas alheios. Há livros e músicas que falam sobre isto em diversos níveis, mas me parece que é nos filmes que as histórias sobre este tema ganham mesmo a sua dimensão épica; como a que meu amigo me contou de " Sublime Obssessão" eu nunca ouvi igual e é de deixar Deborah Kerr com sua paralisia disfarçada por cobertorzinho em "Tarde demais para esquecer" no chinelinho.O "enredo" é uma drama magistral ( que poderia ser um clássico de Nelson Rodrigues se o cenário fosse a classe média carioca) e foi dirigido por Douglas Sirk, o mesmo de "Imitação da vida" ( outro exemplo de malfadado altruísmo pois a mãe negra não recebe na história um tratamento políticamente correto,para dizer o mínimo). É mais ou menos assim: Rock Hudson( o eterno galã que,na verdade, era gay) faz o papel de um rapaz que, acidentalmente, atropela um casal, matando o homem e deixando sua companheira cega. Corroído pela culpa ,procura gradualmente se aproximar dela e conquistar seu afeto e a sua amizade ( e a coitada , imagino, sem enxergar, como poderia saber que ele era justamente o assassino de seu amado?). Vai bem mais além, pois começa a estudar,entra para a Faculdade de Medicina ( a estas alturas da narrativa eu já estava quase gritando) e se torna oftalmologista ( claro!) para salvar a moça-provavelmente já apaixonada por ele- e devolver-lhe a visão!!! Nunca vou saber o final da novela pois aí ,achei que a coisa toda estava demais,interrompi o narrador e, colocando-me no lugar dela ao enxergar pela primeira vez o seu salvador miraculoso,berrei: " Fui enganada esse tempo todo, você é viado!!!"
Viu?




O olhar cego,objetiva e subjetivamente falando,de nossa heroína.

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sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Seis graus de separação: como contactar Caetano Veloso

Quando Caetano estava cantando "Burn it bllue" na noite do Oscar ,ele não sabia - mas vai saber agora pois tenho a alegria de tê-lo como leitor-que havia um curioso encadeamento de fatos,circunstâncias e pessoas que contribuíram para que tudo desse certo.Por isto,naquele momento emocionante, eu não pensei em Frida Kahlo mas ,sim, em outro filme, " Seis graus de separação",um roteiro ótimo com grandes atores, que joga no meio da deliciosa história (um sofisticado casal de marchands recebe a visita, em plena madrugada, de um suposto filho de Sidney Poitier, que havia sido assaltado no Central Park) a idéia de que entre nós e qualquer outro ser vivo, por mais distante que seja, há seis pessoas intermediárias que podem levar você até esta criatura.Posto isto, é preciso que se diga, ao apresentá-lo aqui, que há uma certa redundância e um trocadilho onomatopaico em relação a Joe Melillo, diretor do BAM, e o bam,bam,bam do meio teatral de New York. Ficamos amigos em função do trabalho ( ele é o diretor da Brooklyn Academy of Arts, o mais prestigiado e poderoso teatro de NY,onde o Grupo Corpo se apresenta) mas aperfeiçoamos nosso relacionamento nas praias brasileiras onde ele veio,ano após ano,passar o verão. Ponto estratégico e quartel general destas viagens: Salvador! A empresária do Corpo nesta cidade, Marília,é filha de Gilberto Gil e sua sócia,Pitti- que tem uma função chave nesta história - é amiga de todos e de Carlinhos Brown em especial.Some a isto, nosso conhecimento com Caetano e você terá a capital baiana para novaiorquino nenhum botar defeito. E assim foi ,perfeito,durante todo este tempo.Joe se encantou com a Bahia ,tremeu nas bases emocionado quando conheceu seu ídolo - outra vez , Caetano- e disse ter visto Deus pela segunda vez na vida ( não perguntei qual foi a primeira) em um ensaio da Timbalada, nesta época ainda no quintal da casa de Carlinhos na favela do Candial. Meu amigo americano também se deu muito bem com nossa anfitriã e cicerone; por isto quando sua amiga , Julie Taymor,responsável por um dos maiores sucessos da Broadway, O Rei Leão,lhe disse que estava dirigindo um filme sobre Frida Kahlo e queria Caetano Velloso para cantar a canção do filme, não deu outra: pensou na hora em Pitti. Ligou para mim,que telefonei para Pitti, que promoveu o encontro dos dois.Paul Simon não teve a mesma sorte( deve ter ficado sabendo desta história ou, no mínimo, viu o mesmo filme): pediu ao Joe,que ligou para mim e ....Não deu certo. Caetano falou com ele e não quis interromper uma tournée já marcada para cantar em um show,juntos,em NY.Paciência.
Julie Taymor,Joe Melillo,Grupo Corpo,eu,Marília Gil,Carlinhos Brown,Pitti Canela,Caetano Velloso.
Não custa tentar,experimente: são só seis graus de separação.




-A confirmação da história por Joe,hoje, via email.

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